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Políticos mentem menos quando sabem que são checados

1 fev 16
Perfil

Bruno Lupion informa no Nexo Jornal:

 

Um estudo conduzido por professores do Dartmouth College, nos Estados Unidos, e da Universidade de Exeter, na Inglaterra, concluiu que avisar políticos que a veracidade de suas falas seria analisada por agências de fact-checking reduziu em 63% o número de mentiras e imprecisões detectadas nos discursos.

 

Agências de fact-checking (em tradução livre, checagem de fatos) são grupos de especialistas que analisam a exatidão de discursos e os classificam em uma escala de alguns níveis entre falso e verdadeiro. A primeira entidade do gênero foi o FactCheck, criado em 2003, nos Estados Unidos. Em 2007 surgiram o PolitiFact e o Fact Checker. No Brasil há as agências Aos Fatos e Lupa.

 

Os professores Brendan Nyhan e Jason Reifler decidiram medir o impacto dessas agências no comportamento dos políticos, aproveitando a credibilidade do PolitFact, site ligado ao jornal “Tampa Bay Times”, da Flórida, que verifica discursos de membros do Legislativo e do Executivo, candidatos a cargos eletivos e lobistas, pelo que ganhou um Pulitzer em 2009, o prêmio mais importante do jornalismo norte-americano.

 

Para isso, Nyhan e Reifler realizaram uma pesquisa de campo com 1.169 legisladores estaduais de nove Estados norte-americanos (o equivalente ao deputado estadual no Brasil) durante a campanha eleitoral de 2012.

 

 

Políticos foram divididos em 3 grupos

 

1) Alertados sobre fact-checking

 

O primeiro grupo, composto por 392 políticos, recebeu cartas informando que havia uma filial do PolitiFact em seu Estado que poderia avaliar a veracidade e a correção de seus discursos durante a campanha eleitoral. Para fortalecer o alerta, a mensagem citava o possível dano eleitoral e à reputação de ser pego fazendo afirmações falsas. Ao final, trazia dois exemplos verdadeiros de políticos flagrados pelo PolitiFact dizendo mentiras.

 

2) Avisados sobre pesquisa

 

Outros 386 receberam cartas informando apenas que os pesquisadores fariam um estudo para avaliar a acurácia dos discursos de políticos durante a campanha, sem mencionar a palavra “fact-checking”.

 

3) Não foram contatados

 

Os demais 391 políticos não receberam carta alguma, para funcionarem como grupo de controle. Esse método serve para que os pesquisadores possam comparar os resultados obtidos com o grupo de tratamento, que recebeu as mensagens.

 

Após a campanha de 2012, os professores contaram quantos políticos de cada grupo haviam recebido menções negativas por seus discursos de acordo com duas fontes:

 

  • Análises publicadas pelo PolitiFact
  • Artigos em jornais e blogs que questionaram a precisão de discursos, agregados pela plataforma LexisNexis. Essa ferramenta é utilizada em estudos acadêmicos para buscar documentos de áreas específicas

 

 

Quem foi alertado antes teve melhor desempenho

 

Um pequeno percentual dos 1.169 legisladores pesquisados teve discursos analisados pelo Politifact. Foram 27 checagens de 23 políticos diferentes, ou 2% do universo na pesquisa. Nove políticos também tiveram a veracidade de seus discursos questionados em artigos compilados pela Lexis/Nexis.

 

Apesar do número pequeno da amostra final, o resultado, segundo os professores, revelou uma diferença “evidente” entre os políticos do grupo 1, que receberam as cartas ameaçadoras, e os que não receberam nada.

 

Entre o grupo não notificado, 13 políticos tiveram discursos avaliados negativamente pelo PolitiFact (1,7%), contra apenas três entre os legisladores que receberam os alertas sobre fact-checking (0,8%). Oito integrantes do grupo que não recebeu as cartas também tiveram discursos contestados em artigos indexados (1%), contra apenas um do grupo que recebeu os avisos (0,3%).

 

Combinando as duas metodologias, os professores concluíram que o risco de os políticos que receberam as cartas de alerta serem pegos falando mentiras ou imprecisões foi 63% menor do que os que não receberam nada.

 

Para eles, o resultado demonstra que agências de fact-checking podem desempenhar um papel importante para melhorar o discurso político e fortalecer o controle democrático.

 

 

Foto: arteview

 

 

Jornalistas, publicitários e especialistas em comunicação política trazem informação e análise para o debate público da atividade.

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