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A (não) interação entre candidatos e eleitores nas redes sociais

2 mar 16
Perfil

Lucas Rohan* analisa:

 

Quando o mundo percebeu que a Internet ganharia cada vez mais espaço em nossas vidas, começaram as previsões sobre como as mudanças na forma de se comunicar e de consumir informação afetariam diversos aspectos da atividade humana. De lá para cá se passaram cerca de 20 anos e, em termos de evolução da tecnologia, vivemos outra realidade. A Comunicação Mediada por Computador (CMC) agora faz parte da nossa rotina até para as coisas mais simples.

 

A política, óbvia dependente da comunicação, não é mais a mesma – os políticos, em alguns casos, são. O eleitor virou internauta, passou a ter o poder da comunicação na palma da mão e obrigou a classe política a tentar se atualizar. Há outras ferramentas para escolher candidatos e para cobrar resultados dos representantes eleitos. E os políticos não nos pedem voto do modo antigo.

 

Uma das facetas mais fantásticas dessa mudança provocada pelas novas Tecnologias da Informação (TI’s) no modo como eleitores e candidatos se relacionam é a possibilidade de uma inversão de papéis.

 

Enquanto a mídia tradicional (jornal, TV, rádio) funciona apenas como um emissor de discurso político nas propagandas eleitorais, a Internet veio com a possibilidade de existir uma troca entre candidato e eleitor. A comunicação vira interativa quando há um alto grau de responsividade, quando o receptor (eleitor) assume o papel de emissor (candidato) e, de alguma forma, responde à fonte original da mensagem.

 

Quando a Internet começou a ganhar mais importância como meio de comunicação pessoal, do meio para o final da década de 90, a pesquisadora norte-americana Jennifer Stromer-Galley resolveu descobrir como essa possibilidade de interação estava sendo usada pelos candidatos. O trabalho resultou no artigo “Interação on-line e porque os candidatos a evitam”, traduzido e publicado no Brasil no livro Do Clique à Urna: Internet, redes sociais e eleições no Brasil.

 

Depois de analisar as campanhas online dos candidatos nas eleições de 1996 (presidenciais) e 1998 (estaduais) nos Estados Unidos, ela chegou a três razões básicas para a ausência de interação: os custos para a campanha, o risco de o candidato perder o controle sobre seus ambientes de comunicação e a ameaça à preservação da ambiguidade de seus discursos.

 

Em 1998, 43% dos candidatos ao Congresso dos EUA ou a governos estaduais possuíam websites próprios. A pesquisadora Elaine C. Kamarck apresenta esse e outros dados no artigo “Campaigning on the Internet in the election of 1998”, parte do livro “Democracy.com? Governance in a networked world”, publicado um ano depois e citado por Stromer-Galley. Ela analisou todos os websites e classificou apenas dois deles como “totalmente interativos”.

 

Quando tive contato com esse artigo, eu estava saindo derrotado de uma campanha eleitoral (eleições de 2014 no Rio Grande do Sul, na qual trabalhei com o candidato Tarso Genro, derrotado em segundo turno). Após essa experiência, entendi que os motivos apontados por Stromer-Galley eram perfeitamente factíveis.

 

De fato, a manutenção de uma equipe capaz de dar conta do trabalho de interação com os eleitores custa muito caro, o risco de perda do controle da comunicação da campanha é real, pois campanhas políticas são feitas para transmitir um discurso fechado, e a ameaça à tradicional ambiguidade dos discursos dos políticos é realmente um temor, principalmente durante uma campanha, quando o candidato não pode se arriscar a fazer um comentário que desagrade parte do eleitorado.

 

Apesar de concordar com os motivos apresentados pela pesquisadora norte-americana, eu saía de uma campanha diferente, na qual a interação nas redes sociais foi um dos pilares.

 

Utilizamos inúmeras vezes a ferramenta Face to Face, do Facebook, fazendo o candidato responder diretamente os internautas. Promovemos diálogos transmitidos ao vivo on-line, consultas públicas e campanha participativa, além de sempre incentivar a interação nas redes pessoais do candidato. Perdemos nas urnas, mas com certeza ganhamos nas redes.

 

Aqui, cabe ressaltar que uma campanha política bem executada na Internet não é certeza de vitória, por dois motivos. Primeiro porque, ainda hoje, não são todas as pessoas que estão conectadas. No Brasil, por exemplo, segundo o Reuters Institute Digital News Report 2015, dos 202 milhões de habitantes, 53% tinham acesso à Internet. Ou seja, há 47% que não consomem conteúdo on-line, mas votam.

 

Além dos cidadãos off-line, o segundo motivo que deve ser considerado é que nem todos os 53% que acessam a Internet com frequência estão dispostos a consumir conteúdo sobre política.

 

As pesquisadoras Eva Anduiza, Marta Cantijoch e Aina Gallego, da Universitat Autònoma de Barcelona, afirmam que a exposição a grande quantidade de informações pela Internet pode produzir maior interesse na política e, dessa forma, favorecer o aumento da participação. No entanto, esse interesse na política geralmente vem de quem costuma acessar esse tipo de conteúdo, já que o próprio usuário é responsável pela seleção do que irá consumir.

 

Em 2015, cheguei a Portugal a tempo de acompanhar de perto a campanha para as Eleições Gerais para o Parlamento. Por estar familiarizado com o tema, tanto profissional quanto academicamente, passei a acompanhar com atenção a atuação dos candidatos portugueses nas redes sociais. Para efeitos de pesquisa, escolhi os três principais concorrentes – a coligação Portugal à Frente (PSD/CDS), o Partido Socialista (PS) e o Bloco de Esquerda (BE) – como objeto da minha análise.

 

O objetivo foi identificar, dentro da atuação deles na Internet, ações de interação com o eleitor. Para isso, fiz um pente fino nas publicações nos sites oficiais das campanhas e nas redes sociais Facebook, Twitter, Instagram, YouTube, Flickr, Tumblr e WhatsApp.

 

A conclusão não poderia ser mais desanimadora, do ponto de vista de quem é um entusiasta do uso das novas TI’s como forma de incrementar a participação política. Tal como identificado há quase 20 anos por Stromer-Galley ao analisar as campanhas nos Estados Unidos, a interação entre candidatos e eleitores na campanha portuguesa de 2015 foi falha. Ao analisar cuidadosamente centenas de publicações dos três concorrentes nas redes sociais, identifiquei apenas três tentativas de interatividade.

 

Os portais dos três candidatos analisados contavam com um generoso convite à participação do eleitor em suas homepages. Isso é praticamente uma obrigação nos dias atuais. Aposto que, ao analisar sites de qualquer campanha atual, o ícone supostamente participativo – que muitas vezes só remete para um formulário de contato – está em destaque no topo da página.

 

Nas redes, o candidato da coligação Portugal à Frente (PSD/CDS), Pedro Passos Coelho, protagonizou uma tentativa de interação com seus seguidores no Facebook e no YouTube. Foi lançada a ação “Passos responde às quartas”, através da qual o candidato se propôs a responder em vídeo uma pergunta enviada pelo Facebook e selecionada por sua equipe.

 

O problema que fez essa ação ser falha é que ela foi lançada duas semanas antes da eleição. Portanto, houve apenas duas quartas-feiras e duas respostas em vídeo (pela lei portuguesa, a campanha eleitoral só tem duas semanas). No Facebook, os eleitores enviaram centenas de perguntas e quase todas ficaram sem resposta, pois Passos Coelho gravou dois vídeos e sua equipe respondeu genericamente alguns comentários.

 

No mesmo dia em que a campanha foi lançada, o usuário Ricardo Faria escreveu a seguinte questão: “Caro Dr. Passos Coelho. Primeiro de tudo obrigado por não ter abandonado Portugal. Atualmente possuímos excelentes dados para explodir a nossa economia (petróleo de baixo custo, juros baixos, etc). A coligação possui medidas para lutar contra a subida do petroleo, juros,etc num futuro próximo? Quais? (sic)”.

 

Como resposta, recebeu o seguinte texto da página Portugal À Frente: “Boa pergunta, Ricardo Faria! Obrigado. #somosmais”. A proposta era direcionar a questão ao candidato, mas, com exceção das escolhidas para resposta em vídeo, foram respondidas pela equipe do partido. Isso causa uma sensação de participação inválida para o internauta.

 

Tradicionalmente, em escritórios de campanhas eleitorais, há questionamento sobre a validade da estratégia de participação, visto que nem sempre os candidatos dedicam tempo suficiente para responder um bom número de questões. Quem trabalha em campanha se questiona se é uma boa estratégia garantir a fidelidade dos poucos eleitores que tiveram suas perguntas respondidas e desagradar a ampla maioria que, ou não foi respondida ou obteve retorno claramente impessoal.

 

A estratégia do Partido Socialista de usar a imagem do candidato Antonio Costa como principal elemento da campanha on-line não foi acompanhada de interação com o eleitor.

 

As redes oficiais levavam o nome dele (CostaPS2015 no Facebook e no Twitter), uma foto do candidato estava em todos os perfis e a hashtag #Costa2015 foi utilizada durante toda a campanha, mas não há registro de resposta no Twitter, ou mesmo uma simples curtida em comentários positivos enviados por eleitores no Facebook. Um fenômeno estranho, visto que aparentemente a página se propunha a ser menos oficial e mais pessoal.

 

Candidata com a maior fatia do eleitorado jovem, com presença consolidada nas redes sociais e convertida em destaque da campanha eleitoral, a deputada Catarina Martins operou ativamente suas contas pessoais no Facebook, no Twitter e no Instagram, mas não interagiu com seus eleitores. Por outro lado, ela interagiu durante toda a campanha compartilhando conteúdo do Esquerda.Net, site e redes sociais oficiais do Bloco de Esquerda.

 

Em suas redes pessoais, as publicações de Catarina Martins priorizam, além da interação com as demais redes da campanha, fotos de bastidores. Para isso, foi criado um álbum chamado “À margem da campanha #legislativas2015”, que foi atualizado várias vezes com imagens capturadas pela fotógrafa Paulete Matos. Uma das mais curiosas foi publicada no dia 21 de setembro e mostra a candidata acompanhada por outras três pessoas, assistindo ao noticiário em um celular no meio da rua.

 

Apesar de toda essa malemolência na produção de conteúdo para a Internet, a campanha do Bloco de Esquerda também falhou ao não dar atenção para a interação com os eleitores. Mesmo o uso do WhatsApp sendo o seu diferencial nessa campanha, não se consolidou um processo de troca de informações entre os eleitores e os candidatos. Catarina Martins, por exemplo, nunca interagiu publicamente com um eleitor no Facebook, mesmo sendo a candidata preferida dos jovens, os que mais usam as redes sociais.

 

As três campanhas produziram conteúdos específicos para a Internet. Em geral, foram ações de boa qualidade, como séries de banners, vídeos exclusivos para a Internet, cobertura de eventos no Twitter, transmissões on-line e etc.

 

Observa-se aqui que, no caso da coligação Portugal à Frente e do Partido Socialista, as campanhas foram terceirizadas às agências de comunicação – ambas de brasileiros. Isso resultou em uma campanha bem projetada, aparentemente melhor definida do que a do Bloco de Esquerda, mas, por outro lado, sem intimidade nenhuma com o discurso político presente nas respostas dos eleitores on-line.

 

O elemento mais importante de uma campanha política on-line (a interação) foi subutilizado pelos candidatos em 2015. A situação é a mesma do ciclo eleitoral português de 2009, um ano depois da significativa eleição de Barack Obama, um marco no uso da Internet pelas campanhas políticas. A interação já havia sigo negligenciada pelos partidos políticos naquela ocasião, apesar da tentativa de aproximação ao método norte-americano com a contratação de profissionais que trabalharam na campanha de Obama.

 

O professor Francisco Rui Cádima, da Universidade Nova de Lisboa, observa no artigo Política, Net e Cultura Participativa”, publicado em 2010 na revista Media&Jornalismo, que naquela eleição a interatividade a partir de plataformas temáticas, como fez Obama, praticamente não existiu, assim como o “efeito rede” não foi gerado. Uma situação muito similar com a que nos deparamos nessa campanha.

 

Após constatar isso, quis entender os motivos dos coordenadores de comunicação das campanhas para essa ausência de interatividade. Tinha algumas suposições: a falta de uma equipe ampla para responder aos eleitores poderia ser um dos motivos; sendo um pouco mais pessimista, também essas iniciativas pouco interativas poderiam ser uma tentativa maquiar a campanha para parecer participativa; e a ausência de vínculo entre as equipes que comandaram as redes sociais das campanhas e os militantes partidários também pode ter prejudicado a possibilidade de contato direto com o eleitor.

 

Ao tentar entrevistar os responsáveis pelas campanhas dos três concorrentes, não obtive resposta. Nem por e-mail, nem por telefone, nem pelas redes sociais e nem pelos famigerados formulários de contato nos sites dos partidos. Se a comunicação de um grupo partidário não dá atenção aos questionamentos feitos por um jornalista após a agitação do período eleitoral, como imaginar que poderiam responder as questões dos eleitores enviadas durante o turbulento processo de campanha política?

 

Observei, no caso português, uma presença on-line muito mais focada em preencher um espaço que hoje é praticamente obrigatório para a política – se os eleitores estão na Internet, os que querem ser eleitos também precisam estar lá – do que na construção de um espaço de diálogo e troca de informações.

 

Os candidatos aqui, assim como muitos em outras partes do mundo, parecem entender a Internet como mais um meio para potencializar a divulgação de seus discursos prontos e não como uma oportunidade de fortalecer a representação dos cidadãos, a partir de canais pelos quais eles podem expressar suas vontades e colaborar com propostas para um futuro governo.

 

(*) Lucas Rohan é mestrando em Novas Mídias e Práticas de Web

 

 

Fonte: Linkedin / Pulse

 

Foto: perolasagrada

Jornalistas, publicitários e especialistas em comunicação política trazem informação e análise para o debate público da atividade.

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