opinião

Baixando os custos da campanhas

3 set 15
Perfil

Marcelo Weiss comenta* em Marketing Político.com:

 

Reduzir a propaganda eleitoral com a desculpa de baixar o custo das campanhas é o mesmo que proibir por lei a publicidade de produtos para baixar seus preços ao consumidor. Simplesmente não funciona assim.

 

As maiores democracias da atualidade tem um processo eleitoral inclusivo, principalmente na comunicação, fazendo com que o cidadão tenha acesso às propostas dos candidatos e, acima de tudo, desperte seu interesse pela discussão política.

 

Propostas como a publicada pelo Senador José Serra, onde cada candidato se apresentaria sozinho, ele e a câmera, para o público, só garantirá que ninguém assista esse horror televisivo que seria o horário eleitoral.

 

Todos nós estamos acostumados a ver a mídia, e em especial a televisão, como entretenimento e é assim que a comunicação funciona. Se fosse diferente, a indústria automobilística publicaria apenas a ficha técnica dos seus carros, consumidor leria tudo e decidiria sabiamente qual a melhor escolha.

 

Mas não é assim. As pessoas necessitam de uma gama de elementos muito mais ampla para tomarem suas decisões. E essas decisões, tanto na política como no vida em geral se baseiam não penas no racional, mas também no sentimento, na esperança, nos elementos subjetivos (e extremamente complexos) que nos levam a cada decisão e escolha.

 

Ao contrário do que se tem tentado colocar, o que necessitamos é de uma maior liberdade na comunicação eleitoral. Hoje é vetado aos candidatos mostrarem políticos de outros partidos que não sejam da sua coligação em seu material eleitoral. Na prática significa que um candidato não pode mostrar uma promessa sendo feita por um político em outra eleição e mostrar que ela simplesmente não foi cumprida.

 

É uma pena. É uma auto proteção para que se possa prometer e nunca cumprir. Quem perde são os candidatos honestos (sim, há muitos deles) e logicamente o eleitor.

 

Outra proibição absurda é a da pré campanha. Qual é o problema em uma pessoa divulgar que será candidato e, muito tempo antes trabalhar para mostrar que poderá fazer a diferença na política?

 

Novamente o que temos hoje é a autoproteção dos já eleitos, pois estes podem divulgar seus feitos e trabalhos nos seus mandatos. Ou seja, revestindo-se de proteção ao eleitor, grande parte da classe política tenta sempre proteger seu feudo, criando limitações e impedimentos para que novas propostas e ideias floresçam.

 

Este oportunismo, na ingenuidade e até na preguiça do eleitor aparece novamente na proposta do alinhamento das eleições a cada 5 anos. A grande maioria da população não quer realmente votar e só vota por ser obrigada. A obrigatoriedade do voto já teve seu importante papel na politização do país, que não votou por anos.

 

Hoje já começa a saber. Já se discute política entre os amigos, nos barzinhos, em família, nas redes sociais. Estamos progredindo e já poderíamos deixar que quem realmente quer participar do processo eleitoral vote. Deve ser um direito, não uma obrigação. Mas ainda, manter a frequência da discussão cada 2 anos é bem saudável e manterá a população prestando atenção na atuação dos políticos. O contrário é apenas um artifício para afastar a população do processo político.

 

Por último gostaria de falar sobre a mais populista das propostas atuais. O financiamento privado de campanha. É muita ingenuidade acreditar que a proibição de empresas que financiarem campanhas vai realmente impedi-las. Uma proibição destas apenas fará com que o Caixa 2 seja definitivamente institucionalizado, e isso só dificultará o controle dos interesses escusos por traz das doações.

 

A única forma de se lutar contra esse jogo são leis duras contra o Caixa 2, clareza nos doadores de campanha pela via oficial, vigilância sobre os eleitos e seus patrocinadores e punição para quem infringir a lei, como se faz em qualquer democracia desenvolvida no mundo.

 

Eu sei, dá trabalho. Mas o preço da liberdade é a eterna vigilância.

 

* Publicado originalmente em 15 de julho de 2015

 

 

Foto: catracalivre

 

 

Jornalistas, publicitários e especialistas em comunicação política trazem informação e análise para o debate público da atividade.

Publicações relacionadas

Campanha curta, túmulo do candidato desconhecido

Senado complica a Reforma Política, mas ainda pode consertar

“Eleições brasileiras são uma grande hipocrisia”, diz Janio de Freitas

últimas publicações
notícias Posto Ipiranga barra propaganda de João Dória na justiça

Mônica Bérgamo informa:   O TRE-SP (Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo) aceitou pedido...

exterior Estátuas de Trump nu divertem os EUA

Estátuas que satirizam o candidato republicano à presidência, Donald Trump, foram espalhadas em cinco...

opinião Campanhas para governar, não apenas para ganhar

Donald Trump e Hillary Clinton, em debate na eleição presidencial norte-americana, colocam o dedo...

técnica O voto de garrafa

Aprendi a expressão “voto duro” na Bolívia, quando atuei como consultor na campanha de...

pesquisas Penúria nas pesquisas, vôo cego nas campanhas

A eleição municipal já começou e o mercado de pesquisas eleitorais também está em...

regulação Lei Falcão 2.0 no horário eleitoral: restrições e benefício

Em 1º de julho de 1976 foi promulgada a Lei nº 6.339, batizada em...

financiamento Campanha barata ou injusta?

Michael Freitas Mohallem* comenta:   A última mudança nas regras eleitorais, em 2015, teve...

depoimentos Os Prisioneiros da Caixa 2

Ao final de seu depoimento ao juiz Sergio Moro, dentro do acordo de delação...

história Conselhos eleitorais com 2.000 anos de validade

Políticos disputam eleições há milhares de anos. E, antes mesmo de Jesus Cristo nascer,...