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Os fundos ocultos que também competem nas eleições dos EUA

6 fev 16
Perfil

Cristina F. Pereda informa no El País Brasil:

 

As regras do jogo mudaram há seis anos, mas os Estados Unidos apenas começaram a descobrir agora quais são as suas consequências. Desde 2010, grupos que são independentes dos candidatos podem arrecadar fundos, sem limites, e não são obrigados a revelar a origem desse dinheiro.

 

Nesse mesmo ano, uma avalanche de candidatos conservadores, impulsionada por essa nova forma de financiamento, ajudou os republicanos a recuperarem a maioria na Câmara dos Deputados. Dois anos depois, disparou o valor arrecadado por campanhas alheias às lideradas por Barack Obama e Mitt Romney.

 

Agora, em 2016, os fundos acumulados por organizações ocultas já superam os de alguns candidatos. Os cidadãos norte-americanos nunca saberão qual é a origem de grande parte desse dinheiro. Esses fundos ocultos que também competem nas eleições dos EUA são conhecidos como dark money (dinheiro negro) ou Super PACs.

 

O democrata Bernie Sanders usa os Super PACs como um dos argumentos de sua campanha eleitoral contra a sua rival, Hillary Clinton. Ele acusa a ex-senadora de estar ligada ao dinheiro de Wall Street e se gaba por não ter nenhum desses grupos associados à sua candidatura. Mas, o verdadeiro fenômeno das novas formas de arrecadação influencia ainda mais a disputa entre os republicanos. Nos casos de Jeb Bush, Marco Rubio e Ted Cruz, grupos externos já conseguiram arrecadar mais fundos que eles.

 

Bush é o candidato que possui mais dinheiro, mas, apesar de que os Super PACs que o apoiam já acumularam 118 milhões de dólares (cerca de 460 milhões de reais), o ex-governador da Flórida, por si, conseguiu apenas 31,9 milhões de dólares (124,5 milhões de reais) para sua campanha. Hillary Clinton, no entanto, conta com 116 milhões de dólares (452 milhões de reais), além de outros 47,9 milhões de dólares (186,9 milhões de reais) provenientes de grupos externos.

 

Dessa forma, o partido Republicano pode estar diante de uma situação única que converte o fator do financiamento em uma das chaves da corrida presidencial: apostas pessoais sem o apoio de doadores oficiais, que são mantidos durante meses por fontes anônimas.

 

A imprensa norte-americana alerta há alguns meses sobre a existência de “famílias que querem controlar as campanhas” e “o domínio dos fundos ocultos sobre os gastos das campanhas eleitorais”, fatos que caracteriza como “o maior desafio enfrentado pelos estados”.

 

O Supremo argumentou, em 2010, que a norma previne a corrupção porque os grupos não agem em “parceria” com os candidatos, mas não especifica o limite de associação a uma campanha.

 

Desde a sentença chamada Citizens United (Cidadãos Unidos), decretada em 2010 pelo Supremo Tribunal, é possível criar organizações para arrecadar fundos a favor de um candidato nos Estados Unidos, e também agir por fora da campanha oficial, de forma independente. Um cidadão comum pode doar até 5.400 dólares (cerca de 21.000 reais) a um político que está disputando a presidência do país, mas, por sua vez, os Comitês de Ação Política (Super PACs) não possuem limites.

 

Eles ainda contam com uma via extra de influência. A Comissão Federal Eleitoral (FEC) determina que os Super PACs não são obrigados a revelar a origem do dinheiro que arrecadam se as suas operações não estiverem diretamente ligadas a uma campanha. Segundo o Supremo, tal norma previne a corrupção, já que os grupos não atuam em parceria com os candidatos, mas não especifica qual é o limite de associação a uma campanha.

 

Essa zona, um tanto obscura, é onde grande parte dos grupos mais influentes agem. “Nunca houve uma quantidade tão pequena de pessoas e empresas fornecendo tanto dinheiro a uma campanha desde o escândalo de Watergate”, publicou o The New York Times junto com a sua recopilação das 158 famílias que distribuíram mais de 176 milhões de dólares (687 milhões de reais) durante a primeira fase da corrida presidencial. As suas organizações seguem o modelo estabelecido por Charles e David Koch em 2010, quando eles abriram uma nova via de influência através de doações milionárias para as campanhas de vários candidatos.

 

A marca deixada pelos irmãos Koch na ascensão da Tea Party ou em uma iniciativa para negar o envolvimento do homem na mudança climática foi documentada pela jornalista Jane Mayer no livro Dark Money. A obra relata como a campanha falida de David Koch na década de oitenta fez com que ele abandonasse a política para apostar no poder que permite novas formas de financiamento, especialmente através de sua organização, Americans for Prosperity (Americanos pela Prosperidade).

 

“Se a sentença Citizens United fez pensar que as grandes corporações aumentariam, a realidade é que os maiores investidores são um pequeno grupo de norte-americanos extremamente ricos”, explicou Mayer em uma entrevista recente. Segundo a jornalista do The New Yorker, a coalizão organizada pelos irmãos Koch planeja investir 900 milhões de dólares (3,5 bilhões de reais) nas eleições de 2016.

 

A revista POLITICO também conseguiu identificar os gastos de mais de 140 milhões de dólares (546,5 milhões de reais) por parte de grupos opacos. Essa cifra representa investimentos quatro vezes maiores do que os destinados pelos próprios candidatos à propaganda eleitoral. Há apenas dois que não contam com o apoio de Super PACs: Donald Trump, que tem a intenção de se financiar com meio próprios, e Bernie Sanders, que surpreendeu com a sua capacidade de arrecadar 3,5 milhões de dólares (13,6 milhões de reais) entre pequenos doadores.

 

Um dos Super PACs que apoiam o republicano Jeb Bush, chamado Right to Rise the USA (Direito de Ascender os Estados Unidos), já gastou 61 milhões de dólares (238,1 milhões de reais) em anúncios a seu favor, segundo dados da FEC. Bush é um dos candidatos que desafiou as normas de associação com um Super PAC, já que esteve presente em um evento destinado à arrecadação antes de anunciar sua campanha. O Right to Rise the USA é gerenciado por Bill Simson, um antigo executivo do Walmart e ex-assessor de Bush durante seu mandato como governador da Flórida.

 

O também republicano Marco Rubio conta com o apoio do Conservative Solutions Project (Projeto de Soluções Conservadoras), um grupo que já investiu 9,5 milhões de dólares (37 milhões de reais) para promover o senador da Flórida.

 

Os Super Pac partidários de Hillary Clinton são outro exemplo da concentração de fundos opacos sob um mesmo nome: David Brock. Esse inimigo dos Clinton, convertido em aliado, está por trás do Priorities USA (Prioridades dos EUA), American Bridge 21st Century (Ponte Americana Século XXI), Correct the Record (Corrigir o Registro) e Franklin Forum. Essas organizações e Super PACs fazem campanha em nome da candidata democrata e têm o mesmo endereço de Washington registrado como sede, segundo dados da Sunlight Foundation.

 

Uma das principais atividades desses Super PACs é financiar anúncios, ligações telefônicas feitas aos eleitores e outras modalidades de propaganda em diversos meios. Em 2012, os fundos opacos arrecadaram um total de 300 milhões de dólares (1,17 bilhão de reais).

 

Em 2016, antes do início das votações, esses grupos externos já gastaram mais de 143 milhões de dólares (558,2 milhões de reais). E o verdadeiro valor de suas arrecadações pode ser ainda maior. Apesar de alguns deles estarem obrigados a revelar a origem do dinheiro – caso tenham vínculo declarado com alguma campanha –, na maioria dos casos, os norte-americanos jamais saberão quem pagou por boa parte dos anúncios, e-mails e iniciativas eleitorais que farão parte de suas vidas até o dia 8 de novembro.

 

 

Foto: capitalresearch.org

Jornalistas, publicitários e especialistas em comunicação política trazem informação e análise para o debate público da atividade.

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