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Americanização Eleitoral

6 ago 15
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O texto da reforma política aprovado na Câmara Federal ainda será avaliado pelo Senado e submetido à Presidente Dilma, para eventuais vetos. Embora pouca coisa tenha mudado do ponto de vista estritamente normativo, ocorrerão importantes novidades no uso dos espaços para comunicação política, se as decisões dos deputadores forem mantidas.

 

Caberá agora a cada consultoria de comunicação interpretar a nova legislação e debater novas soluções com seus clientes. O trabalho de profissionais que funcionam no “piloto automático” nunca deu resultados. Agora dará menos ainda.

 

Conceitualmente, há um elemento de interesse de toda a sociedade, candidatos, profissionais e eleitores: as novas regras americanizarão nossas campanhas. O que isso quer dizer, exatamente? Serão reforçadas as inserções curtas, os “comerciais” na grade de programação, em detrimento do programa eleitoral, que terá o tempo reduzido. A consequência é que teremos campanhas mais focadas na imagem dos candidatos do que nos argumentos que eles apresentam.

 

Eu, pessoalmente, não gosto desse formato, pois ele prejudica a educação política do povo. Prefiro, de forma geral, sistemas mais europeizados, que têm foco no debate de argumentos.

 

Mas, fazer o que? Também estão impondo “medidas” de redução de custos das campanhas que são, para dizer de forma amena, discutíveis. Mas aí não cabe a nós, profissionais da área, comentar. Somos parte interessada e cabe ao Estado normatizar o funcionamento do nosso mercado.

 

Campanhas focadas em promoção de imagem pessoal tornarão o planejamento estratégico do investimento eleitoral ainda mais essencial. Cada passo terá que ser avaliado com cuidado, levando-se em conta uma campanha mais curta e, portanto, de menos impacto na vida cotidiana.

 

Com o novo recorte proposto pela Câmara, herdaremos apenas o pior do sistema americano, pois não se estabeleceram as eleições primárias para escolha de candidatos pelos partidos. Assim, um erro custará dois. Um acerto poderá valer mais que dois e assim por diante.

 

Vamos esperar para ver o que será modificado no Senado. O fim da reeleição quase certamente cairá, mas já se pode deduzir, do que foi consolidado pela Câmara, um novo perfil de campanha. Descobrir como torná-lo eficiente será o desafio.

 

FOTO: Eric Hersman/Flickr

Publicitário, criador das campanhas Lula Presidente-1989 e 1994 e Marina Silva em 2010. Com experiência em campanhas majoritárias em diversos estados brasileiros.

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