técnica

O Ministro do Teleprompter

7 mar 15
Perfil

Um Marqueteiro no Poder, livro do jornalista Luiz Maklouf de Carvalho lançado no final de janeiro, não é um estudo sobre o pensamento e a obra de João Santana, o estrategista responsável por eleições e reeleições de seis presidentes da República, entre eles Luis Inácio Lula da Silva e Dilma Roussef. Não é também uma biografia aprofundada do profissional, definido pelo autor como “o 40º ministro do Governo Dilma”.

 

Bastante simpático a Santana, o trabalho contém-se nos limites de um “perfil biográfico”, material jornalístico ligeiro. Mas ainda assim permite entrever as ideias do consultor político mais polêmico do momento, admirado entre os pares e discutido entre os eleitores.

 

Marqueteiros apresenta, abaixo, os trechos do livro que contém algumas dessas ideias.

 

 

IRMÃOS CORAGEM

 

O que é mais importante para ser marqueteiro?

 

João Santana pensa, olha em torno, dá mais um golinho no segundo e último Jerez, e deixa sair do jeito que veio:

 

– Tem que ter colhão, colhão, colhão e colhão. Se não tiver coragem pessoal, tá fodido. Coragem de enfrentar situações terríveis. Você não pode imaginar algumas situações de campanha, de decisões solitárias que eu tenho que tomar. Tem sempre pressão, tem sempre conflitos, o que é absolutamente normal.

 

Logo depois, a nuance:

 

– Não quero que isso pareça soberba. Essa segurança absoluta eu não tenho, ninguém tem. Até porque, sem nenhuma demagogia, João Santana é pequeníssimo… (pg. 63)

 

 

SAMBA RÁPIDO

 

“Eu tenho um circuito neural rápido, tzzzzwzq, tchxzchcz, querwtsch, tryzwrrrs (barulhos de circuito neural rápido). Qualquer pessoa que convive ou conviveu comigo sabe disso. Meu cérebro produz algumas coisas muito rápidas e essa é a nossa função, como marqueteiros, que é um termo que adoro, um nome simpático. Apesar de toda a carga pejorativa que tentam impor, eu acho bonito. Parece coisa de sambista. Eu sinto como se fosse o sambista da política” (pg. 65)

 

 

COMBATE DE VISÕES

 

“Campanha é confronto e cada lado tem que buscar os meios mais eficientes para fazer essa disputa. Todos têm que criticar, discutir, explicar o mundo com seus argumentos. Este é o embate ideológico. A ideologia não tem o poder de refazer fatos vividos e materializados, mas tem o poder de examinar estes fatos por diversas óticas. Como a filosofia e a psicologia também têm. É assim que se constroem visões de mundo. É assim que se constrói o debate democrático.” (pg. 225)

 

 

FRONTEIRA DA MANIPULAÇÃO

 

“Existe um fio muito débil que separa a persuasão da manipulação. E todos, numa disputa, seja de qual for a natureza, terminam fazendo um zigue-zague, um  vai e volta nessa fronteira. Qual o jogo  mais constante no amor, e na sedução, senão aquele das formas sutis de manipulação? E na religião, e no exercício da fé? Você chega a manipular seu próprio ego – e seu ego também o manipula -, ou não? Claro que sim: quando você se apaixona, você está manipulando o seu próprio ego.” (pg. 225-226)

 

 

TEATRO DO REAL

 

“Certos setores e personagens da política e da inteligência brasileira ainda não entendem o papel do marketing. Ou demonizam ou se embasbacam com ele. O maior equívoco é querer separar, como fazem alguns, o marketing, ou a comunicação, da política. O marketing e a publicidade são linguagens da política. Ela e eles estão umbilicalmente ligados. Fazem parte de um mesmo corpo. Sempre foi assim, mesmo que com outros nomes e com outras técnicas. A política é uma arte filosófica, mas é também objeto de consumo. É disputa de poder, mas também torneio estético. Nós fazemos o elo entre esses dois polos. Gosto de dizer que política é teatro, mas não é ficção”(pg. 229-230)

 

 

O PODER DAS METÁFORAS

 

Numa entrevista de 2013, João Santana cunhou uma das expressões mais polêmicas de sua carreira. Disse que o confronto dos adversários de Dilma Roussef, para desalojá-la da liderança das pesquisas de intenção de voto e ganhar a eleição de 2014, seria uma “antropofagia de anões”. Neste trecho do livro, Santana explica as razões de sua frase.

 

“Meu comentário só teve tanta repercussão porque estava vestido com uma metáfora poderosa. Poderosa não por sua agressividade. Mas porque tinha algo de ‘diabólico’ na sua construção. Ela batia fortemente no inconsciente. Eu juntei, nessa metáfora, um ser até hoje misterioso e estranho, que é o anão, com um rito primitivo e pagão, ainda fudamentamente encravado no inconsciente coletivo, que é a antropofagia.

 

“A junção de ‘anão’  ‘antropofagia’ provoca uma reação em cadeia, uma sinapse poderosa. Por isso, o comentário provocou tanta celeuma. Se não tivesse embutido essa metáfora, teria saído logo de cena ou talvez nem entrado. Os racionalistas ingênuos viram apenas ‘arrogância’ no meu comentário. Desvendo isso agora, para que você constate, mais uma vez, o poder das metáforas. E veja como podemos fazê-las funcionar em determinadas direções. Isso, aliás, já vem sendo feito há milênios. Os cânticos religiosos, as bruxarias e os poemas de amor de efeito encantatório repousam nesta ciência.” (pg. 32)

 

UM MARQUETEIRO NO PODER  (Perfil Biográfico) – Luiz Maklouf de Carvalho, Editora Record, Rio de Janeiro, 2015.

 

(Foto: Itabuna Urgente)

 

 

 

 

Jornalistas, publicitários e especialistas em comunicação política trazem informação e análise para o debate público da atividade.
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