opinião

A eleição que desapareceu

9 set 16
Perfil

Não sei se você percebeu, mas o novo Horário Eleitoral Gratuito já está no ar desde 26 de agosto, como determinou em 2015 a chamada “minirreforma eleitoral”.

 

O sentimento é de sumiço. Fatos políticos mais relevantes dominam o noticiário e o espaço para a mobilização eleitoral, consagrado como um direito dos cidadãos pela Constituição de 1988, voltou remodelado para sumir na paisagem: não pauta a política, não une a sociedade em torno da escolha de quem exercerá o poder. Na forma como está agora, ele não enriquece o debate e tampouco a formação política do eleitorado, e faz esquecer da alegria do voto.

 

Talvez você tenha visto candidatos isolados falando no rádio e na TV.  A maioria, falando da mesma forma de tantas eleições, sem nenhum progresso de conteúdo, como os legisladores afirmavam pretender, em relação ao modelo anterior. Pior ainda, no cenário de radicalização da política brasileira, vemos importantes políticos concorrendo a prefeito simplesmente sem ter o que dizer, sem saber o que dizer.

 

Se o modelo anterior já não era bom, ao menos propiciava a escolha de candidatos por exclusão: o voto no “menos pior”, um fenômeno eleitoral mundial. Agora, sejam melhores ou piores, os concorrentes estão escondidos numa campanha envergonhada, pautada pela rejeição aos políticos.

 

Também se vê aqui e ali, na grade das emissoras, mensagens onde aparece apenas um fundo azul com os dizeres: “Horário Reservado para Propaganda Eleitoral Gratuita”. Elas significam que o partido ou o candidato com direito àqueles segundos não conseguiram entregar os vídeos, por falta de fundos para produzí-los ou para fazer as cópias de distribuição. Em dezenas de cidades, candidatos também não têm conseguido entregar as suas inserções de rádio. Perde-se um espaço de comunicação precioso, em dezenas de emissoras .

 

As novas regras de financiamento eleitoral, centradas em doações pessoais, inviabilizam as mínimas condições para o trabalho de campanha. No Brasil, ninguém doa para políticos. Assim, o direito ao uso do rádio e da TV não é exercido, por falta de dinheiro dos candidatos. Cerca de 30% das candidaturas já estão em processo de impugnação, por desrespeito à lei. É o “efeito laranja” apresentando-se: doações fictícias, para encobrir financiamento ilegal.

 

A Internet foi apresentada como o meio que equilibraria o tempo roubado à campanha, mas ela não produziu nem produzirá efeitos dignos de nota no curto prazo, em um país onde apenas 8% dos internautas tem cognição suficiente para desfrutar da rede em todo o seu potencial. Mesmo no “zapzap” há enormes problemas, entre os usuários que não dominam a escrita nem a compreensão de texto. Usam o aplicativo para pequenas mensagens.

 

País da Televisão

 

Ainda somos o país da TV. Sem ela, não há campanha. Os brasileiros sempre entenderam a estréia do HEG como o início da campanha eleitoral, mas, nesta eleição, o fenômeno não aconteceu. A eleição ainda não entrou na casa dos eleitores, nem com a propaganda já presente na televisão. Ainda são altos os números para o quesito “Não sabe/Não respondeu”, nas pesquisas de intenção de voto.

 

Alguns dirão que isso é ótimo, que são menos políticos para nos encher a paciência com abobrinhas e depois nos trair. Mas há uma questão solta no ar, que não se responde apenas com a desaprovação aos políticos, um lugar comum. É a qualidade dos nossos representantes, nos parlamentos e nos governos. Não adianta fazer de conta que ela é indiferente, porque a má política cobra sempre um preço elevado de qualquer país.

 

As eleições para prefeito e vereador, que acontecerão em pouco mais de 20 dias, são similares às eleições “intermediárias” de outros países, como os Estados Unidos. Elas definem boa parte do que acontecerá nas eleições gerais ao Congresso, às assembléias, aos governos estaduais e federal. De tanto ver políticos envolvidos em escândalos, o povo avançou muito na consciência de que é fundamental eleger bons candidatos ao Legislativo. Mas ele não pode levar essa crença à prática, porque o que se estabeleceu foram regras discricionárias.

 

O eleitor não pode votar em novos nomes, de possíveis bons parlamentares, porque a minirreforma eleitoral diminuiu a campanha e tirou visibilidade dos postulantes ao Legislativo. Não pode porque a lei, ao limitar as doações a pessoas físicas, abriu as portas para candidatos do crime organizado, das máfias ou milionários que declaram abertamente estar financiando suas campanhas “com recursos pessoais”.

 

No momento, portanto, em que o eleitor brasileiro está mais crítico, mais exigente, mais seletivo, só lhe resta votar  em candidatos a prefeito e vereador já conhecidos, porque os novos não têm tempo de se fazer conhecidos e de divulgar as suas plataformas. Tudo foi prejudicado nessa campanha, do material impresso à presença na internet. Temos uma eleição curta, sem meios, onde prevalece o recall, o índice de lembrança de nomes da classe política tradicional.

 

Plataforma Desagradável

 

O direito à comunicação política é posterior à Ditadura de 1964. Ele foi entendido pelos constituintes de 1988 como uma conquista, mas nem assim obteve o respeito da mídia, como nos países civilizados do mundo.

 

A mídia brasileira sempre viveu de suas próprias versões dos fatos e das informações. Uma plataforma como o Horário Eleitoral Gratuito, onde os fatos políticos são editados pelos próprios políticos, nunca agradou aos editores. Por ser livre, a comunicação política nunca agradou à mídia convencional. Isso resultou num prato cheio para políticos como Eduardo Cunha, que sonham em se eternizar no poder.

 

A minirreforma eleitoral de Cunha recebeu apoio da mídia. Menos política autônoma nos meios de comunicação representa mais espaço para os publishers e suas versões dos fatos, além de mais poder para as lideranças tradicionais do cabresto, das famílias oligárquicas, em milhares de cidades. E no caso deste pleito, aplica-se uma velha lição: “se quiser destruir algo de fato, condene-o ao silêncio”. É o que vemos, uma campanha condenada ao silêncio.

 

Todo o trabalho do Congresso Nacional em criar “regras” e limitar os “malefícios” da comunicação política vêm sendo driblado, como se nada tivesse sido alterado. Brasil afora, nenhuma restrição imposta ao formato televisivo das mensagens políticas está sendo respeitada, nem por candidatos, nem pelos profissionais de campanha. Mas ninguém infringe a lei, porque ela é simplesmente mal feita e cheia de brechas, que estão sendo usadas. De qualquer forma, a campanha curtíssima impede a obtenção de bons resultados.

 

Usemos São Paulo como exemplo. Após mais de dez dias de campanha e dois debates frente à frente, os números básicos de intenção de voto seguem seguem praticamente inalterados. Temos Celso Russomano liderando o pleito com uma certa distância e, na sequência, quatro candidaturas emboladas no segundo lugar: Marta Suplicy, Luisa Erundina, João Dória Jr. e Fernando Haddad. Todos, a rigor, invisíveis, com muito pouco espaço real para mostrar as diferenças entre seus projetos e tentar caminhar para o segundo turno.

 

Esse fenômeno vem ocorrendo em centenas de campanhas. O novo formato interferiu diretamente no tempo de impregnação das mensagens. Se o esperado numa campanha mais curta eram reações velozes, deu-se o contrário. Vemos um timing mais lento, pesquisas estacionadas, sem movimento nem dentro na margem de erro.

 

Planos de Mídia

 

O que fazer, então, nesse quadro? Que ação produzir, para consolidar uma ascensão?

 

Um recurso técnico que não vem sendo bem utilizado são os planos de mídia. A lei determina o uso de espaços de 30 segundos ou 1 minuto, para a inserção de propaganda política na grade das emissoras de rádio e TV. Jogar com esses tempos é uma forma de incrementar a eficiência das campanhas.

 

A técnica de mídia tradicional obedece a duas categorias: frequência e cobertura. A frequência, óbvio, é a programação se repetindo muitas vezes, durante sua exposição. Gera mais visibilidade, com foco no impacto. Já a cobertura é indicada quando se deseja que a mensagem chegue ao público mais amplo possível, e obtenha maior retenção. Quanto maior a cobertura, maior a retenção de argumentos.

 

Se houver consciência das coordenações de campanha sobre o que desejam, elas podem atuar no plano de mídia, para inserir nos horários nobres os comerciais mais longos e mais contundentes.  Ou seja, no início da noite, trocar por inserções maiores.  É uma forma de interferir no rame-rame da falação. E de incrementar ações de ataque, que são muito mais contundentes nos tempos maiores.

 

Há várias fórmulas táticas recomendadas pela experiência, para este momento da campanha. É hora de acompanhar nas pesquisas o chamado “índice de expectativa de vitória”, e de buscar formas de atuar sobre ele, para aumentá-lo.

 

A pergunta que produz esse índice é a mais simples: “Quem você acha que vencerá a eleição?”.  O acompanhamento deste número é o que tem demonstrado um poder maior de previsão dos resultados. Muitos eleitores de outros candidatos respondem tristes que quem vencerá o pleito é o favorito, mas que ele não terá seu voto. São eleitores buscando soluções na linha do “voto útil”, ainda que sem maniqueísmos ideológicos.

 

Se os atuais segundos colocados querem garantir presença no segundo turno, devem trabalhar para aumentar seus índices de expectativa de vitória. Quem deseja sair da margem de erro deve antecipar já as suas ações e investir agora na campanha de rua. Não economizar para a reta final, de nenhuma forma.

 

Para os candidatos a segundo colocado, é fundamental produzir gráficos ascendentes nas pesquisas agora, e dar a eles a maior publicidade possível, para provocar uma reação nas pesquisas, ainda que pequena. Esta é a  hora de dar publicidade aos números, com apelos bem construídos em torno da expectativa de ida ao segundo turno. Dessa forma, será mais fácil obter adesão do eleitorado indefinido, que vai além do “voto duro”, histórico, de cada concorrente.

 

 

Foto: amoantix.com

 

 

 

 

Publicitário, criador das campanhas Lula Presidente-1989 e 1994 e Marina Silva em 2010. Com experiência em campanhas majoritárias em diversos estados brasileiros.

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