história

“As Sufragistas” resgata história da luta pelo voto feminino

11 jan 16
Perfil

Cynthia Lub resenha o filme em Esquerda Diário

 

Estreou “As Sufragistas”, um filme sobre o movimento sufragista feminino na Inglaterra. A protagonista é uma mulher trabalhadora que lutava sob condições terríveis enfrentando, além do governo e do marido, a exploração do patrão.

 

“– O que significa o voto para você, senhora Watts?” – perguntou o Primeiro Ministro a uma jovem lavadeira “– Por que está aqui?”. “– Pela ideia de que… há outra maneira de viver a vida” – respondeu ela.

 

Este diálogo se desenvolvia na Câmara dos Comuns, com uma jovem trabalhadora rodeada de homens de terno chamada Maud Watts, protagonista do filme As Sufragistas e interpretada pela atriz Carey Mulligan. Ela representava aquelas mulheres trabalhadoras que, enquanto lutavam decididamente pelo sufrágio universal feminino, necessariamente deviam romper outras correntes.

 

Tão profundo é o diálogo como o era a luta de mulheres trabalhadoras dentro de um forte movimento, o das sufragistas inglesas, que desde o começo do século XX até a Primeira Guerra Mundial haviam dado continuidade ao sufragismo “constitucional ou moderado” do final do século XIX.

 

As sufragistas tiveram uma etapa de luta de ação direta e tiveram sua primeira bandeira em 1903 quando sua líder Emmeline Pankhurt, junto a suas filhas Christabel e Sylvia, criou em Manchester – o centro da revolução industrial – a União Social e Política das Mulheres (USPM). O chamado sufragismo radical se converteu num massivo movimento policlassista, adquirindo enorme relevância política e social depois de fortes campanhas militantes que mobilizaram milhares de mulheres.

 

A diretora do filme, Sarah Gavron, junto à roteirista Abi Morgan, deram a Emmeline Pankhurt, protagonizada por Maryl Streep, uma presença pontual e inspiradora nas sombras deste grande movimento. Se o cinema comercial nos surpreendeu com um filme que narra um dos movimentos mais importantes das mulheres da Inglaterra, surpreendeu mais ainda que a protagonista seja uma mulher trabalhadora lavadeira. E é algo que devemos celebrar já que ainda, em pleno século XXI, se invisibiliza a historia da luta da classe trabalhadora e com ela as experiência das mulheres trabalhadoras.

 

As belíssimas imagens entre azuis acinzentados atravessando os vapores da lavanderia narram crua e poeticamente as terríveis condições sob as quais lutavam as mulheres trabalhadoras pelo voto feminino. Uma luta que implicava não só no enfrentamento com a família e o marido, mas também com a exploração na fábrica e a opressão do patrão que, não contente com seu sangue e suor, abusava sexualmente das trabalhadoras. Era, portanto, lutar contra a opressão patriarcal na sua forma de dominação mais profunda.

 

SufragettesCartaz

 

O filme mostra fielmente as imagens das mulheres ocupando ruas, incendiando caixas de correio e apedrejando comércios e estabelecimentos públicos; assim como a exigência de serem consideradas prisioneiras políticas fazendo greve de fome nas prisões. Ainda assim, faltou mostrar que, como parte de um movimento massivo, não estavam marginalizadas socialmente. Ao contrário, a radicalização deste movimento que provocou o encarceramento generalizado das sufragistas – o filme mostra um total de 1 mil mulheres – que se negavam a pagar as multas, foi criando um imaginário coletivo de “mártires” com multidões em apoio a esta luta quando estavam em liberdade.

 

É de gelar o sangue quando vemos a jovem Maud fazendo greve de fome na prisão, frente a dureza do tratamento carcerário que aplicavam a alimentação forçada. Porém, longe do isolamento destas mulheres ao sair da prisão, como mostra o filme, existia uma indignação pública a favor delas, que inclusive obrigou o governo a introduzir uma lei que permitia liberar as ativistas em greve de fome se suas vidas estavam em risco. Existia uma lei limitada, conhecida como “Lei do gato e rato”, já que depois de recompostas estas mulheres deveriam voltar à prisão.

 

Resgatar sua história, uma tarefa militante para a emancipação das mulheres

 

A importância deste filme para a luta das mulheres na atualidade é enorme e seu enfoque desde a vivência de uma mulher trabalhadora que vai se radicalizando é um profundo ponto de partida, muito pouco comum no cinema. E permite à muitas de nós, como mulheres militantes, refletir sobre a história das sufragistas.

 

O filme transcorre em 1912, no momento mais agudo do movimento que se fortalecia sob um processo de greves que havia começado em 1911, diante do qual a repressão se endurecia. Não é casual que nesse mesmo ano a polícia de Scotland Yard estreou pela primeira vez na história uma câmara fotográfica para perseguir as militantes e pendê-las, tal como mostra o filme.

 

Edith Ellyn, representada pela atriz Helena Bonham Cartes, era outra sufragista farmacêutica e grande “cozinheira” de bombas. E a única que era apoiada pelo marido no filme, militante fiel para a causa destas mulheres. É ele quem fala de um movimento crucial do movimento: sua divisão diante do questionamento por parte de Sylvia, uma das filhas de Emmeline Pankhurt, a estratégia militante da sua mãe.

 

Já desde 1911, Sylvia mostrava suas diferenças com a União fundada pela mãe, por considerar que ia se distanciando dos princípios socialistas. Foi depois da Primeira Guerra Mundial, até onde o filme não chega, quando as diferenças se aprofundaram.

 

Emmeline Pankhurt deu um giro político ao serviço do governo britânico e a USPM mudou o nome de seu jornal A Sufragista por A Britânica; até chegar a colocar que era preciso suspender as exigências das mulheres para apoiar o governo britânico na guerra. Enquanto Sylvia continuava seu trabalho com as mulheres trabalhadoras, lutando pelo voto feminino e por igual salário, uma vez que manteve uma posição pacifista de acordo com a maioria das organizações operárias. Fundou o Women’s Peace Army (Exército de Mulheres pela Paz) e se dedicou a militar no Partido Trabalhista.

 

Anos depois, Sylvia deu um giro à Revolução Russa de 1917 e conheceu Lenin ao visitar a Rússia soviética, o que lhe custou cinco meses de prisão na Inglaterra. Assim, ganhou o apelido de “Pequena senhoria russa”, quando em julho de 1917 o jornal que dirigia passou a se chamar “O encouraçado das mulheres”. Foi fundadora do Partido Comunista inglês, ainda que tenha se distanciado da militância durante o regime estalinista. E apoiou também a Revolução Espanhola (Pão e Rosas, Edições Iskra, 2008).

 

A Guerra Mundial acabou derrotando parcialmente um movimento sufragista que adquiriu um caráter internacional, desenvolvido em vários países da Europa. Acabou paralisado quando a maioria dos movimentos feministas participaram voluntariamente à serviço de seus próprios governos. Emmeline Pankhurt e sua filha Christabel chamaram a uma mobilização, em 1915, com o lema “Voto para as heroínas, igual ao dos heróis”, momento mais agudo da divisão do movimento feminista a nível internacional.

 

Em 1918, foi concedido o voto para as mulheres maiores de 30 anos com alto nível econômico. Finalmente obtiveram o sufrágio universal feminino em condições iguais às dos homens no ano de 1928.

 

O filme nos mostra que, décadas antes, centenas de mulheres foram golpeadas pela polícia, encarceradas sofrendo todo tipo de maus tratos e humilhações, alimentação forçada através da introdução de sondas pelo nariz e boca. Tinham perdido seus empregos quando se rebelaram queimando a mão do patrão com o ferro de passar. Perderam seus filhos frente ao desprezo dos maridos. Protagonizaram greves de fome, de sede e de sonhar. Queimaram caixas de correio, explodiram a casa de verão do primeiro ministro, foram atropeladas pelo cavalo do príncipe, tomaram as ruas e romperam as vidraças dos edifícios públicos e dos políticos cujos partidos consideravam que se as mulheres votasse se “perderia a estrutura social”.

 

Queriam votar. E queriam “viver a vida de outra maneira”, que as próximas meninas deixassem de nascer nas fábricas, para depois trabalhar ali desde os sete anos e crescer com dores no corpo que em sua curta vida deveriam suportar.

 

Resgatar sua história para continuar a militância contra um sistema patriarcal que legitima o atual sistema de exploração. Porque a metade da humanidade ainda persegue o objetivo de “viver a vida de outra maneira”, sem feminicídos e abuso sexual, sem mortes por abortos clandestinos, sem precarização do trabalho nem desigualdade salarial, sem pobreza, sem direitos proibidos.

 

FOTO:

Jornalistas, publicitários e especialistas em comunicação política trazem informação e análise para o debate público da atividade.
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