depoimentos

Sobre Candidatos e Engraxates

15 abr 15
Perfil

Em 1992, desembarcamos em Uberlândia (MG) para fazer um segundo turno. Situação difícil. De um lado, um jovem bem apanhado, candidato do PMDB, turbinado pelos partidos à esquerda. Deputado com jeitão sedutor. Do outro, um senhor semicalvo, novato na política, cara fechada, correndo pelo PTB e apoiado pelas forças do “Centrão”.

 

Pedimos logo as fitas do primeiro turno. Foi um susto: o jovem, além de bom comunicador, cativava mesmo… E o nosso Paulo Ferolla, 61 anos, meio travado, distante do eleitor… quase antipático. Quem seria o sucessor do ex-prefeito Virgílio Galassi, que já havia administrado a cidade várias vezes? A coligação “das esquerdas” já meio que festejava nas ruas.

 

Por mais que procurássemos, não encontramos gravações estimulantes de seu Ferolla interagindo com os eleitores. Seguia sendo o secretário de Finanças e Desenvolvimento do Virgílio: circunspecto, fechado, isolado no gabinete. Mas, olhando bem, sentimos, lá no fundo, uma timidez escondida, de menino, que talvez o embalasse naquele segundo turno.

 

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Prefeito Paulo Ferolla

Pedi a uma produtora para falar com seu Ferolla. Um outro produtor já tinha passado a ela o perfil do “bom velhinho” – como a equipe o apelidou logo de saída. Ruralista, criador de gado, era de origem humilde, filho de pai bancário. Daqueles de por meia-sola no sapato e os engraxar na Rodoviária. Fez isso, sim!

 

Pronto! Já começamos a armar algumas cenas e projetar emoções, para conquistar simpatia e colher votos na telinha. A disputa prometia. E ludicamente nos estimulava.

 

Cena 1: seu Ferolla deveria sair às ruas para cumprimentar o eleitor. Apertar a mão, sorrir, abraçar, uai! Mas com simpatia, sorrisos, carinho e envolvimento com as crianças. Como um vovô amigo. Pararia para conversar, perguntaria sobre a vida e os sonhos dos uberlandeses. Como um paizão carinhoso. Um futuro e atencioso prefeito. Pois é.

 

Cena 2: seu Ferolla teria de lembrar dos tempos em que engraxava sapatos na rodoviária. Era um lugar do povão e pegaria bem ele interagindo com os engraxates, contando histórias, falando da eleição. Então era isso: ele engraxaria os sapatos na Rodoviária, sob a vista dos eleitores. Simples como eles.

 

E aí começaríamos a humanizar a imagem do candidato.

 

Dito e não feito: de longe, de uma varanda da casa onde trabalhávamos, vejo lá no fundo do quintal a produtora e um Ferolla inquieto, tirando os grandes óculos com as duas mãos, colocando de novo. Impaciente. E, depois, andando meio nervoso.

 

O desencontro estava no ar. Chamo a produtora e ela vai direto ao assunto:

 

– Nada feito. Primeiro, ele diz que só cumprimenta quem conhece. Segundo, ele argumentou que não pegaria bem engraxar os sapatos dos engraxates… (Risos. Ou rs rs rs).

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Prefeito Virgilio Galassi

 

Explicada a “marquetagem”, o seu Ferolla conquistou os eleitores, não apenas na Rodoviária. Um jingle carinhoso atraiu a garotada, mães e mulheres. E o seu Ferolla, com sua simplicidade, ganhou os eleitores. E mais, quebrou a escrita: pela primeira vez na história dos segundos turnos de Uberlândia, um prefeito fazia o sucessor.

 

Mais ainda: o que também martelamos na campanha se propagou como verdade inconteste. Atrás de um bom prefeito – dizíamos – há sempre um competente secretário de Finanças, aplicando bem o dinheiro público.

 

O competente e austero Ferolla fez isso também como prefeito, de 1993 a 1996. Na outra eleição, lá estávamos nós de volta. E Virgílio Lopes, agora “discípulo” de Ferolla, voltaria a vencer. E convencer.

 

Dois grandes homens públicos, dois prefeitos que deixaram saudades!

 

 

Ilustração: restauracar

Foto Paulo Ferolla: Correio de Uberlândia

Foto Virgílio Lopes: Gazeta do Triângulo

 

 

Jornalista desde 1959, teve cargos de comando na Folha, Realidade, JT e Globo. Fez a 1a. eleição presidencial, em 1989 (Mario Covas), e atuou em várias estaduais (Hélio Costa, José Serra, Geraldo Alckmin) e municipais, em Uberlândia, Sorocaba, Rio Preto…

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