técnica

O voto de garrafa

18 ago 16
Perfil

Aprendi a expressão “voto duro” na Bolívia, quando atuei como consultor na campanha de Hernán Siles Suazo, candidato do Movimento de Izquierda Revolucionaria. Era um partido histórico daquele país, à época já em decadência política e depois, como vim a perceber, também em decadência moral.

 

“Tenemos no menos del 20% de  voto duro”, me disse o presidente do MIR. De fato, naquele pleito o partido ultrapassou em pouco a margem dos 20%. E perdeu por isso.

 

Voto duro é aquele que se confirma pleito a pleito, em cada legenda, de cada corrente de pensamento. É o voto dos fiéis. Há os que o chamam de “teto eleitoral”, outros falam em “índice de fidelidade”, mas o termo mais carregado de conteúdo é esse mesmo: voto duro.

 

No Brasil anterior a esta crise já vivemos tempos de votos bem duros, bastante consolidados. Usando São Paulo como exemplo, o PT pós-redemocratização oscilou por longo tempo entre 20% e 30% de preferência segura do eleitorado. Maluf chegou atingir 20% por muitos anos. E, no centro, o PSDB navegava em mares que ora pendiam para um lado, ora para o outro.

 

Esse perfil de voto, que se revelou para o PT já nas eleições de 1982, logo após a sua fundação, mostrou seu cansaço em 2014. A baixa performance de Alexandre Padilha, na disputa do governo paulista, deixou claro que o teto petista havia baixado e não permitia mais erguer postes vitoriosos. Mas o voto duro é um fenômeno que não se supera, ele se reconfigura. Migra entre vários projetos e permanece, ou não, configurando uma tendência.

 

Dessa forma, o ponto de partida para análise de qualquer cenário eleitoral é a medição do voto duro, entre os competidores a cada pleito. A partir dela, dá-se a formulação dos posicionamentos estratégicos e dos diferenciais capazes de interferir nessa lógica.

 

Quem permanece enclausurado entre os já convertidos tem teto, pode no máximo obter a adesão desses seguidores fiéis. Para chegar ao poder, todo projeto político deve ultrapassar o voto duro. Deve pregar para além dos convertidos. Mas a primeira tarefa é assegurar o voto duro. Garantir que ele não debande e não produza novas séries históricas de desempenho, inferiores.

 

Discursos de Nicho

 

Uma tendência das equipes de comunicação eleitoral é transportar diretamente o, digamos, “discurso duro” para o conteúdo de campanha, pois é o único discurso que o candidato e seus assessores conhecem. Todos são convertidos a seus próprios projetos. Mas quando se adota como eixo  de campanha essa linha de falar para o voto duro,  as candidaturas sem fecham.

 

Na medida em que os vários candidatos fazem discursos de nicho, numa eleição com vários candidatos tecnicamente empatados dentro da margem das pesquisas, todos os projetos se tornam frágeis. Ficam sujeitos a chuvas e trovoadas da opinião eleitoral. Não há consolidação sem ampliação de ninguém. Assim, os que conhecem o métier sabem que a tarefa de lançamento das candidaturas é oferecer um discurso de ampliação, sem trair o voto duro.

 

É nesse momento que se coloca o dilema ético, para os políticos que atuam com espírito público: até onde vai o limite da ampliação do discurso? O que é possível dizer ou “prometer” sem trair as convicções, a trajetória pessoal e as expectativas do eleitorado?

 

Para os políticos do “vale tudo”, simplesmente vale tudo. Por essa razão, é comum que eles cometam muitos erros, gerem muita rejeição, sem nenhum controle sobre isso, nem pensamento. Já para os que defendem projetos e ideias, o caminho é o uso da criatividade, entendida como a geração de fatos políticos que produzam credibilidade – o produto de maior demanda no mercado eleitoral contemporâneo em todo o mundo.

 

Tônus Político

 

Nesta semana de início da campanha às eleições municipais, a mais bizarra de todos os tempos por conta da nova legislação, o que vemos é o pleito acontecer em um país extremamente dividido. Quem é PT é PT, quem é Rede é Rede, quem é tucano é tucano, quem é PR é PR , quem é PMDB é PMDB, e assim por diante.

 

As campanhas iniciais lançadas em todo o país chegaram com o menor tônus político já visto desde a redemocratização do país, em 1985. Sem mensagem, de forma assustada, eclipsada pelo processo de impedimento de Dilma Rousseff e pelas Olimpíadas, a eleição começa meio envergonhada, quase pedindo desculpas aos eleitores, independente das correntes de pensamento representadas. Sem  identidade nítida de ideias, os candidatos optam por discursos de autolouvação, autoelogio, para enfrentar um eleitorado com alta rejeição aos políticos. A eficiência, claro, é prejudicada.

 

O discurso da ampliação, para atrair eleitores além do voto duro, é muito mais subjetivo. O desafio é obtê-lo de forma coerente com o conjunto essencial de ideias da candidatura. A ampliação passa pelo estilo de comunicar os projetos de poder, pelos textos do candidato, sua maneira de se manifestar sobre temas espinhosos, sem perder consistência política.

 

Nesse sentido, o discurso de ampliação envolve falar de modo diferente, abrir mão de jargões, tocar as pessoas.  E, claro, trocar sempre que possível as palavras por gestos, por ação concreta. Levar o discurso para a ação política, que deve ser agregadora e coerente.

 

Obtida a credibilidade, a vitória se torna viável. Todo projeto político, embora muitos pensem o contrário, tem a sua verdade. Nenhuma verdade contém todas as outras. Por isso, o segredo é fugir da seita do voto duro.

 

Fórmula Burra

 

Nesta campanha, ainda em fase inicial, é grande o número de candidatos estacionados nas pesquisas de intenção de voto. Em centenas de cidades. Boa parte deles pratica a fórmula burra, acreditando em seus discursos duros e falando para seus eleitores duros, sem nenhuma consciência do que fazem. O voto duro é como se trancar numa garrafa junto com os apoiadores, não os eleitores.

 

Profissionais e assessores políticos buscam o todo tempo medir o porte do voto duro, nos cenários onde atuam. Já atuei com ótimos calculistas, com calculistas que roubam no jogo, calculistas que se autoenganam, mas na maioria dos projetos observei que o dimensionamento do voto duro, como medida de segurança do trabalho e visão de resultado, simplesmente não é realizado tecnicamente. Permanece na área dos palpites.

 

O Brasil em crise política está abalando as posições consolidadas. O que antes era polarização certa, hoje é dúvida. O que vemos são candidatos vomitando discursos duros, em tiros sem alvo. O petismo ou o antipetismo puros,  como pregação,  já não se sustentam na realidade. Mas os candidatos insistem.

 

O mais provável é que tenhamos mais segundos turnos dos que em pleitos anteriores, graças a esse fenômeno. No segundo turno, a busca da ampliação do eleitorado se dá como imposição. Mas os pregadores de seita, que dizem a mesma missa para os mesmos fiéis e que hoje orbitam entre 10% e 20% de intenções de voto, estão todos condenados a correr grandes riscos. A menos que pratiquem o discurso de ampliação, no tempo adequado.

 

Foto: bebidaexpressblog

 

 

 

Publicitário, criador das campanhas Lula Presidente-1989 e 1994 e Marina Silva em 2010. Com experiência em campanhas majoritárias em diversos estados brasileiros.

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