opinião

Democracia, voto e pesquisa de popularidade

22 jul 15
Perfil

Nos anos 1970, os militares brasileiros foram muito populares. Seus projetos de comunicação eram de pensamento único, produzidos num ambiente de censura, onde não havia o contraditório. Os militares, bem assessorados pelos norte-americanos, produziram ações de comunicação com ótimos resultados.

 

Funcionaram a ponto do General Emílio Médici, o terceiro ditador dos cinco que nos foram impostos, ser ovacionado no Maracanã lotado, após a Copa de 70. Nem Lula conseguiu isso. Aliás, em jogos de futebol tem sido vaiado, desde 1989.

 

Em determinado momento, todos os jornais publicam que o General Figueiredo (o quinto ditador), ao ser perguntado sobre a necessidade de realizar eleições para presidência, respondeu: “Para que eleições? Nós estamos muito bem avaliados nas pesquisas”.

 

Agora sofremos o movimento inverso. O político mal avaliado – em qualquer nível, de vereador a presidente – é instado a deixar o cargo, em razão de sua má avaliação. Como se pontos de pesquisa e votos fossem a mesma coisa.  É uma situação clássica, na verdade. A baixa avaliação sempre foi grande munição para adversários, que obviamente a usam.

 

Mas todos sabem que governar apenas de olho nos números de avaliação é não governar, pois o trabalho de gerir a coisa pública muitas vezes requer decisões que  desagradam a opinião pública, ou são noticiadas de forma a desagradar.

 

Neste momento, boa parte de mundo ainda enfrenta a ressaca da crise financeira de 2008. Governantes são mal avaliados em muitos países, onde a população repudia os remédios que foram utilizados. Mas ninguém fala em descumprir o calendário eleitoral.

 

Nas democracias ocidentais maduras, as avaliações de pesquisas, altas ou baixas, não são admitidas como elemento para determinar a continuidade, nem, muito menos, a interrupção de governos. Mandatários eleitos só são impedidos quando cometem crime. E, nesses casos, não deve haver mesmo nenhum tipo de prurido. O que a lei determina, para casos de crimes comprovadamente praticados, deve ser aplicado.

 

Institutos de pesquisas sérios, tecnicamente confiáveis, sempre existirão e a informação que trazem é fundamental para o país. Mas a “democracia das pesquisas”, como pregada pelo General Figueiredo, jamais substituirá a do voto. Pelo menos é isso que esperamos.

 

 

FOTO: Carlos Namba/DedocEdAbril

 

 

Publicitário, criador das campanhas Lula Presidente-1989 e 1994 e Marina Silva em 2010. Com experiência em campanhas majoritárias em diversos estados brasileiros.

Publicações relacionadas

Aqui jaz o Impeachment de Dilma

O Papel da Pesquisa Eleitoral

Uma pergunta para a oposição

últimas publicações
notícias Posto Ipiranga barra propaganda de João Dória na justiça

Mônica Bérgamo informa:   O TRE-SP (Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo) aceitou pedido...

exterior Estátuas de Trump nu divertem os EUA

Estátuas que satirizam o candidato republicano à presidência, Donald Trump, foram espalhadas em cinco...

opinião Campanhas para governar, não apenas para ganhar

Donald Trump e Hillary Clinton, em debate na eleição presidencial norte-americana, colocam o dedo...

técnica O voto de garrafa

Aprendi a expressão “voto duro” na Bolívia, quando atuei como consultor na campanha de...

pesquisas Penúria nas pesquisas, vôo cego nas campanhas

A eleição municipal já começou e o mercado de pesquisas eleitorais também está em...

regulação Lei Falcão 2.0 no horário eleitoral: restrições e benefício

Em 1º de julho de 1976 foi promulgada a Lei nº 6.339, batizada em...

financiamento Campanha barata ou injusta?

Michael Freitas Mohallem* comenta:   A última mudança nas regras eleitorais, em 2015, teve...

depoimentos Os Prisioneiros da Caixa 2

Ao final de seu depoimento ao juiz Sergio Moro, dentro do acordo de delação...

história Conselhos eleitorais com 2.000 anos de validade

Políticos disputam eleições há milhares de anos. E, antes mesmo de Jesus Cristo nascer,...