opinião

Meu Deus! Em quem eu voto para vereador?

22 set 16
Perfil

A inépcia da classe política brasileira chegou a tal nível que, neste momento, a duas semanas do primeiro turno da eleição municipal, o presidente da Câmara Federal, Rodrigo Maia,  já está falando em mudar a legislação referente ao financiamento de campanhas para 2018. Está falando em mudar uma lei votada em 2015, que nem fez ainda aniversário de um ano, não soprou uma única velinha…

 

Mas a lei não “pegou”, esse é o fato. Não se sustentou em sua primeira eleição e a razão é clara: 30% dos candidatos, em todo o país, não conseguiram arrecadar nenhum centavo. A grande maioria arrecadou apenas isso, centavos. Somando-se as restrições de financiamento aos obstáculos à comunicação, o efeito combinado é desastroso para o processo eleitoral.

 

Em nome do politicamente correto, matou-se a campanha de rua, que marca a vida da sociedade nos países democráticos. Também se diminuiu a duração da campanha como um todo e o período de exibição dos programas de rádio e televisão caiu de 45 para 35 dias. Ou seja: menos política em todos os meios, em nome da rejeição aos políticos.

 

Até o conteúdo tentaram editar, pela via da nova norma legal. Só poderiam aparecer na TV os candidatos, em falas “olho no olho”, como defendem os adeptos de reduzir o fazer político a palavras. Do alto de seu mandato, ouvimos senadores falando que “campanha se faz gastando sola de sapato”.

 

Imagine um candidato a vereador por São Paulo, um colégio eleitoral de mais de 10 milhões de eleitores. Quanta sola de sapato não terá que gastar? A campanha porta a porta só é viável em cidades minúsculas, não no Brasil continental. Mas os legisladores entenderam que não era necessária a comunicação para vencer as enormes distâncias do país, inclusive dentro dos municípios. Bastava o candidato caminhar por aí…

 

Não deu certo, evidentemente. Em todo o país, centenas de campanhas em cidades onde a lei autoriza o uso da TV estão simplesmente ignorando as restrições legais, de tão confusas que elas são. Outras não infringem propriamente a lei para produzir comunicação melhor, mas atuam nas suas brechas, que são dezenas, tornando o trabalho dos legisladores ridículo, amador, risível.

 

Retratos Falantes

 

Mas o que a lei vigente complicou mesmo, na sua absoluta inadequação, foi a vida dos eleitores das cidades médias e grandes, que precisam escolher um vereador. O programa eleitoral gratuito exclusivo para os candidatos proporcionais foi simplesmente eliminado. Seu tempo foi transferido para as inserções “comerciais”, os spots de até um minuto na grade de programação, que estão repletos de “retratos falantes” de aspirantes à vereança.

 

Há uma regra básica de mídia técnica nos meios de massa, que regula a capacidade de impacto e retenção dos comerciais: se uma mensagem é veiculada apenas uma vez, o resultado equivale, matematicamente, a nenhuma veiculação. O mesmo raciocínio vale para o rádio. Veiculou pouco, não comunicou nada. Pois é exatamente isso que está ocorrendo com os nossos candidatos proporcionais.

 

Boa parte dos candidatos a vereador tem direito a uma, talvez duas, no máximo três veiculações. A regra da mídia técnica muda quase nada, para esse número insignificante de mensagens veiculadas. Além disso, o alto número de concorrentes no ar gera um efeito de “poluição”, que acaba tornando  invisíveis os candidatos, individualmente, na grade das emissoras.

 

O sentimento do eleitor é de que não há campanha. Nas conversas entre amigos, mesmo os mais politizados desconhecem o nome e o número de um futuro edil que possa representá-los. Dessa forma, os legisladores que acreditaram que teriam mais exposição na grade das emissoras do que no programa do Horário Eleitoral estão aí sumidos, em spots que se confundem e confundem o eleitorado. E, pior, não alteram o conhecimento, o recall da lista de candidatos.

 

Se 50% do eleitorado já definia o voto legislativo apenas na semana anterior ao pleito, o que temos agora é a grande maioria perdida, sem ter onde informar. Se alguém imaginou que a internet supriria essa lacuna, errou completamente. Embora conectados, muitos brasileiros não possuem cognição para o uso pleno da rede. A retenção dos nomes, argumentos e propostas que circulam na internet, mesmo em aplicativos mais populares como o “zap-zap”, é muito baixa.

 

Os candidatos a vereador – e, tanto quanto eles, os eleitores – foram muito prejudicados nessa campanha. Não há dúvida de que a crise política brasileira vem despertando o povo para importância dos parlamentos, a dependência que as cidades e o país têm de seus legisladores, e a necessidade de voto consciente nessa esfera.

 

Ao mesmo tempo, a sociedade está revoltada contra seus políticos e isso se lê em todas as pesquisas. O sentimento é de busca de renovação. Mas, justamente quando isso acontece, o eleitor não tem como se mover com segurança no cipoal de candidatos. Não pode fazer com clareza a sua opção de renovação.

 

Louvação ao Real

 

Na forma anterior que assumia, o Horário Eleitoral Gratuito surgiu após a eleição de Fernando Henrique Cardoso, em 1994. Essa eleição merece uma observação especial, porque produziu o maior alinhamento de contas de publicidade estatais da história do país, em apoio a um projeto político. A máquina federal foi usada em sua plena capacidade, para vender o Plano Real.

 

Maior aparelhamento do estado, impossível. Tivemos o uso das verbas do Banco do Brasil, da Caixa, da Petrobras e mensagens de apoio explícito à “nova moeda”. Os publicitários que comandavam a campanha tucana, Nizan Guanaes e Geraldo Walter, detinham a conta dos Correios e, sendo diretamente interessados no assunto, também criaram peças de louvação ao Real.

 

Foi a campanha mais milionária da nossa história e iniciou o aumento desenfreado dos custos eleitorais, que acabou por contaminar toda a atividade de comunicação política com a ideia de que os marqueteiros são caríssimos – além de “bruxos”. Após 94, todos os projetos refletiram um novo conceito, forjado naquela campanha: “Se nós perdemos para a falta de dinheiro, vamos buscar dinheiro”. Essa foi a decisão de todos os partidos, inclusive o PT. E chegamos a hoje.

 

A ideia original dos Constituintes de 1988 era de que, no Horário Eleitoral, o eleitor tivesse chance de comparar os projetos, que seriam apresentados com um tempo maior ou menor, de acordo com o porte das coligações. Mas a medida bem intencionada acabou gerando em um comércio gigantesco de tempo de TV, que uma legislação consequente poderia facilmente eliminar.

 

Na revisão da Lei em 1995, fomos à Câmara Federal debater com os deputados na Comissão de Constituição e Justiça, sobre alterações no modelo de propaganda eleitoral vigente até então. Era o pós-Real, onde tinha ficado claro que, em 1994, a lei havia beneficiado alguns em detrimento de outros. Fomos Woile Guimarães, Geraldo Walter e eu, e apresentamos um projeto para combater a perda de eficiência do Horário Eleitoral.

 

O que propusemos foi dividir o HE pela metade, mantendo o espaço fundamental do debate e dialogando com o eleitor também fora do horário em rede nacional, no dia a dia da programação das emissoras. Nasceram as chamadas “inserções”, de trinta segundos e um minuto.

 

Eleição do Recall

 

O formato funcionou bem até o início da desestabilização do projeto eleitoral democrático, via Congresso Nacional. Na visão dos atuais parlamentares, tornou-se necessária uma legislação que afastasse o povo ainda mais da política, que praticamente eliminasse a possibilidade de surpresas, diminuindo o tempo de campanha e fortalecendo os nomes conhecidos.

 

Depois de junho de 2013, quando a demanda por renovação da política se mostrou maior do que nunca, os novos candidatos foram simplesmente reduzidos a pó. Estamos na eleição do recall, do índice de lembrança de cada nome.

 

Anteriormente, com o HE do Legislativo, as eternas barbaridades dos candidatos folclóricos existiam, mas era possível ao eleitor comparar a força de cada projeto, de cada partido, com o próprio tempo de TV servindo para dimensionar essa força. Quanto mais tempo de TV, candidatos e partidos potencialmente mais fortes. Era possível ver o conjunto de candidatos por partido, o contraste entre as legendas, enfim, um grande número de percepções.

 

Agora, o que se vê são apenas comerciais esparsos na grade das emissoras. O eleitor assiste as mensagens isoladamente, sem chance de fazer relações e comparações, sem construir nenhuma referência. Com isso, temos um índice de desconhecimento de candidaturas a vereador de quase 90%.

 

O que já era grave ficou dramático. Pergunte ao amigo a seu lado se ele tem candidato a vereador e você vai encontrar um desconhecimento total de novas opções. Ele vai citar nomes conhecidos, que, mesmo rejeitados por muita gente, vencem por possuir máquinas eleitorais tradicionais.

 

Depois do impeachment de Dilma Rousseff, das Olimpíadas, das Paraolimpíadas e tudo mais que rivalizou com as eleições municipais até agora, vai caindo a ficha do eleitor: “E agora? Em quem eu voto para vereador?”. Quem tem essa dúvida, tem menos de 15 dias para decidir. Encontrar um candidato a vereador novo e decente tornou-se um desafio muito difícil de ser vencido.

 

Por isso, meu amigo, se você tem a intenção de mudar o país através do voto, comece a pesquisar vereadores decentes desde já. A campanha eleitoral já deixou você na mão. Agora, só dedicando um tempo a pesquisar é que você poderá encontrar alguém. Na miríade de candidatos, isso não será fácil. Mas tente, porque vale a pena.

 

Quanto a você, candidato, há uma decisão difícil a tomar. Investir como se a reta final fosse agora, para fidelizar seus votos? Ou guardar munição para enfrentar o enxame de cabos eleitorais dos adversários, que se abaterá sobre sua base no dia da eleição?

 

A fidelização é o caminho mais difícil, mas só resta ele para candidatos que disputam o pleito pela primeira vez. Portanto, eles devem investir já e torcer para que isso produza recall. Já para os candidatos ricos e famosos, o caminho está aberto. É só entrar, que a casa é deles.

 

 

Foto: esportexpress.com

 

 

 

Publicitário, criador das campanhas Lula Presidente-1989 e 1994 e Marina Silva em 2010. Com experiência em campanhas majoritárias em diversos estados brasileiros.

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