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Música política de qualidade para as campanhas eleitorais

24 ago 15
Perfil

Zé Guilherme* comenta para Marqueteiros:

 

A música é uma ferramenta de comunicação poderosíssima. Tem sido utilizada ao longo do tempo nas mais diversas situações, assim como hinos nacionais, nas igrejas e na propaganda em geral. Para cada aplicação, a música sempre acaba tendo a função de comunicar ideias, para o maior número possível de pessoas.

 

Quais os efeitos esperados das músicas utilizadas em campanhas eleitorais? Para responder isso, normalmente vamos investigar qual o briefing da solicitação feita à área de composição e autoria, para a campanha de um determinado candidato.
Isto é o que é analisado e encaminhado. A criação do briefing onde a “área de composição e autoria” vai trabalhar, na realização dessa produção musical.

 

Até aí, acredito que tudo bem. Trabalham-se os valores do público que se pretende atingir e uma série de outros critérios estão dentro do pacote desse tipo de produção. Mas a música resultante fica muito aquém das grandes canções políticas da música popular brasileira.

 

Na década de 1960, a questão política transcende as esferas do alto escalão e passa a ser discutida nas bases mais populares. Os verdadeiros artistas da música que despontaram naquela década – Geraldo Vandré, Chico Buarque, Gilberto Gil e Caetano Veloso, entre outros – passaram a dar ênfase às questões políticas dentro do tema de suas canções.

 

Assim vieram obras como “Construção”, “Roda Viva”, a clássica “Pra não dizer que não falei das flores” e tantas outras. Todas abordando realidades sociais, econômicas e, finalmente, políticas.

 

Para o governo que “se instalava” no poder, a medida de construção era “Ordem e Progresso”. Assim, passou-se a engessar o Brasil de todas as formas.

 

Quando se quer tomar o “poder pelo poder”, uma das medidas mais eficazes é, de fato, cercear as bases culturais, pois elas são os foros de discussão da política. E a atenção do governo voltou-se para as músicas e o poder que elas tinham de criar hinos de contestação popular sobre a condução do país.

 

As músicas incitavam as massas no discurso por um país livre. Os festivais de MPB nessa época retratam a imensa força que fluía pelo público, através das canções.

 

Finalmente, em 9 de fevereiro de 1967 é publicada e oficializada a Lei 5.250, que passa a regular a liberdade de manifestação, do pensamento e de informação. O fantasma da censura nasceu, cresceu e tomou toda a Nação, contendo seus sonhos de expressar sentimentos de liberdade.

 

Posso afirmar que o fantasma dura até os dias atuais. A escala é menor, mas ainda persiste no mínimo a lembrança de que a censura existiu e foi especialmente cruel para a música popular brasileira. A partir daquela década, a MPB entrou em declínio, tanto de qualidade como de produtividade.

 

Nossos principais valores foram saindo do país, um a um, e instalando-se em países que valorizaram sua arte. A cultura da canção/poema, que produziu verdadeiras obras literárias, passou a dar lugar a canções bem mais simples e as portas foram abertas para o avanço da música norte-americana em nosso país.

 

Este é um ótimo cenário político para investigarmos melhor o que hoje ocorre na música das campanhas eleitorais.

 

O objetivo desse tipo de produção é atingir o maior número possível de eleitores e sensibilizá-los através de uma canção. Como o pós-golpe militar resultou no nível cultural que temos hoje no Brasil, então as músicas de campanha, para alcançarem a base social do eleitorado, têm de ter valores musicais bem menos sofisticados em sua elaboração.

 

Daí partirmos para os ritmos “bem populares”, nos estilos pagode, samba, sertanejo, axé, arrocha, funk, enfim, os ritmos de mais apelo junto ao grande público. Os estilos mais sofisticados – como, por exemplo, a bossa nova – teriam um alcance mais reduzido sobre o gosto popular.

 

Em princípio, esta é a crença que se tem. Mas chamo a atenção exatamente para o contrário. Acredito que a crença deve ser revista e que as pesquisas da opinião popular não devem ter o veredicto final sobre o direcionamento musical das campanhas.

 

Como músico, acompanho a evolução de nossa MPB desde os festivais da TV Record na década de 1960, dos quais participei como guitarrista de artistas como Caetano, Elis Regina, Jair Rodrigues, Gil, Roberto Carlos e outros. Continuo produzindo MPB nos dias de hoje.

 

Apesar dos temas principais das nossas autorias estarem focados em problemas atuais da sociedade, eles têm um nível de qualidade bastante sofisticado nos arranjos musicais. Nossas letras têm a mesma intenção de tratar de questões que estão sendo discutidas social e politicamente, mas com uma linguagem poética, direta.

 

Minha pergunta mais simples, então, é: por que as músicas das campanhas eleitorais não podem ser produzidas com um padrão de qualidade elevado? Porque o grande público não vai entender?

 

Dê um carro Mercedes Benz para qualquer pessoa, de qualquer classe, e tenho certeza de que ela vai gostar. Qualidade é qualidade!

 

Enfim, abro aqui a questão do porquê de termos sempre de suportar aquelas marchinhas produzidas por teclados Midi. Aquele som com padrão de rádio AM!

 

O horário eleitoral abre sempre com marchinhas, que até produzem um efeito contrário nos eleitores: ao ouvir os primeiros acordes do tema de abertura do programa, ele mudam imediatamente de canal, como se estivessem ouvindo a “Voz do Brasil”. E tome “O Guarani”, de Carlos Gomes…

 

Acho que a sociedade clama por mudanças mais radicais. Vamos colocar qualidade nas produções musicais e talvez assim o povo se sinta muito mais valorizado e prestigiado.

 

 

* José da Rocha Guilherme, nome artístico Zé Guilherme, é músico e produtor de áudio. É diretor-executivo da produtora Crazy Joe.

 

 

Foto: Doidos por Cinema

 

 

Jornalistas, publicitários e especialistas em comunicação política trazem informação e análise para o debate público da atividade.

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