opinião

Caminho do Marketing

27 jun 16
Perfil

Antonio Risério* comenta:

 

Há muitos anos não temos nada de sequer parecido com “marketing político” no Brasil. O que temos hoje, franco e escancarado, é “marketing eleitoral”. Assim como, é claro, não temos partidos políticos – e sim partidos eleitorais. A política foi deixada de lado.

 

Mas abre-se agora a perspectiva de que deixemos de parte a sistemática do estelionato, que é o marketing eleitoral, para promover um retorno ao marketing político.

 

O marketing eleitoral é a hipertrofia da mentira sistêmica que caracteriza a publicidade, promovendo o casamento da baixeza ética com a alta tecnologia dos produtos. No marketing político, ao contrário, em vez de caríssima pirotecnia ilusionista, o que temos são pensamentos, projetos e sugestões dos eventuais candidatos.

 

Exemplo acabado e imbatível de marketing eleitoral foi Dilma Rousseff (em 2010, também, não só na imoralidade eletrônica de 2014). Marketing político, por sua vez, era o velho Brizola dando o seu recado diretamente para a câmera, dizendo em suas próprias palavras o que pensava do Brasil e do mundo.

 

O que abre a perspectiva de um retorno (em novo contexto, claro) ao marketing político são as novas regras do jogo eleitoral. Com as empresas proibidas de financiar campanhas, os velhos e riquíssimos marqueteiros, que sempre foram os donos do negócio, tiram o time de campo.

 

Alguns deles esperavam ansiosamente por isso. Cantei essa bola há tempos. Com o barateamento das campanhas, poderiam fazer o seu próprio discurso marqueteiro, dizendo que os “trabalhadores do marketing”, de um modo geral, não teriam boas condições de trabalho.

 

Ou seja: um discurso falsamente generoso para, mais uma vez, escamotear a verdade: o projeto de tirar o time de campo, antes de ser enfiado num camburão. Com os mais poderosos planejando atuar apenas no exterior (África e América Latina, que é onde a lambança vige). Mas eu dizia isso no ano passado. Agora, a realidade é outra.

 

Ao dizer que não vão se empenhar em campanhas se não ganharem muito dinheiro, os marqueteiros tiram a máscara: eles não têm nada a ver com política – e têm tudo a ver com negócios. Foi por isso mesmo que impuseram o marketing eleitoral no país, expulsando de cena o marketing político.

 

Isso foi possível, repito, porque os políticos profissionais, em sua quase totalidade, deixaram a política de lado e passaram a pensar só em eleições. Agora, talvez comecem a perceber que, depois de anos marginalizada, pode estar chegando a hora da política cobrar seu preço.

 

 

(*) Antônio Risério é escritor, autor de, entre outros, “A Utopia Brasileira e os Movimentos Negros” (2007), “A Cidade no Brasil” (2012) e do romance “Que Você É Esse?” (a ser lançado em 18 de julho pela editora Record).

 

 

Fonte: Blog do Noblat / O Globo

 

Foto: medium.com

 

 

 

Jornalistas, publicitários e especialistas em comunicação política trazem informação e análise para o debate público da atividade.

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