opinião

Tradutores de Politiquês

29 mar 15
Perfil
Com mais de 140 milhões de eleitores, 32 partidos registrados e eleições regulares a cada dois anos, o Brasil é uma das maiores democracias do mundo. Democracia vigorosa e barulhenta, mas ainda bastante recente, pois até 1985 os analfabetos eram proibidos de votar e apenas em 1989 foi efetivamente sepultada a ditadura civil-militar de 1964, com a volta das eleições diretas em todos os níveis de governo.

 

É, talvez, porque o país ainda esteja na infância democrática, aprendendo a lidar com as tensões naturais dos embates ideológicos e aperfeiçoando seu sistema político-partidário, que haja tanta incompreensão e algum desdém da comunicação política. Popularizada entre nós como “marketing político”, a atividade ainda é vista por muita gente como uma espécie de feitiçaria, praticada por sacerdotes obscuros ditos “marqueteiros”.

 

Estes seres misteriosos, pouco conhecidos e muito falados, teriam poderes paranormais de manipulação de candidatos e de encantamento dos eleitores, produzindo resultados eleitorais imperfeitos. Para os críticos mais extremados, seriam mesmo um abscesso, um tumor maligno no corpo da política virtuosa, a ser feita “sem truques”, por políticos “de cara limpa”.

 

Nada mais falso do que isso. Primeiro, porque a comunicação é a própria essência da política e simplesmente não há fato político se não houver o ato comunicativo correspondente a ele.

 

Depois, porque a comunicação política existe desde sempre, desde a mais remota Antiguidade, e é exercida tanto em regimes autoritários quanto nas democracias, embora só encontre plenitude e legitimidade quando dá suporte a eleições livres e a governos devidamente eleitos.

 

E, finalmente, porque os marqueteiros nada são além de assessores de comunicação, tradutores de projetos políticos para a linguagem popular. Não manipulam nada além das técnicas correntes da melhor comunicação social, em benefício da clareza e do entendimento dos processos eleitorais.

 

O mercado brasileiro da comunicação política, ainda essencialmente sazonal, mobiliza a cada biênio milhares de jornalistas, publicitários, radialistas, cineastas, sociólogos, advogados, atores, produtores, músicos e informáticos, entre outros trabalhadores. Movimenta milhares de empresas, sobretudo agências de propaganda, gráficas, produtoras de vídeo, estúdios de áudio, institutos de pesquisa e empresas de tecnologia. Afeta, de alguma forma, todos os municípios brasileiros.

 

Entre as eleições, a comunicação política auxilia governos a definirem as suas estratégias de divulgação de obras e serviços, supervisiona as campanhas de prestação de contas, discute opções para o enfrentamento de crises. Na mesma linha, auxilia organizações sociais e inclusive empresas privadas, orientando a sua comunicação institucional com o grande público.

 

Marqueteiros vem para dar visibilidade a esse amplo mercado. Vem para fortalecer as suas empresas e valorizar os seus profissionais. Mas, antes e acima de tudo, vem para qualificar a política brasileira. Para auxiliar parlamentares, governantes e candidatos, em seu diálogo com a cidadania. E para favorecer o debate elevado de ideias, democrático, consequente.

 

Marqueteiros pretende ser o grande fórum da comunicação política no Brasil. Falem o que quiserem da atividade, mas conheçam o que ela é, quem a faz, e como essa gente contribui para o avanço do país.

 

 

Foto: nmarritz/ Flickr
Jornalista, diretor de televisão e professor, tem 40 anos de atividades em mídia eletrônica e impressa. Dirigiu, editou ou colaborou nos principais veículos brasileiros. Organizou nacionalmente a televisão universitária. Atuou em 19 campanhas eleitorais.
últimas publicações
notícias Posto Ipiranga barra propaganda de João Dória na justiça

Mônica Bérgamo informa:   O TRE-SP (Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo) aceitou pedido...

exterior Estátuas de Trump nu divertem os EUA

Estátuas que satirizam o candidato republicano à presidência, Donald Trump, foram espalhadas em cinco...

opinião Campanhas para governar, não apenas para ganhar

Donald Trump e Hillary Clinton, em debate na eleição presidencial norte-americana, colocam o dedo...

técnica O voto de garrafa

Aprendi a expressão “voto duro” na Bolívia, quando atuei como consultor na campanha de...

pesquisas Penúria nas pesquisas, vôo cego nas campanhas

A eleição municipal já começou e o mercado de pesquisas eleitorais também está em...

regulação Lei Falcão 2.0 no horário eleitoral: restrições e benefício

Em 1º de julho de 1976 foi promulgada a Lei nº 6.339, batizada em...

financiamento Campanha barata ou injusta?

Michael Freitas Mohallem* comenta:   A última mudança nas regras eleitorais, em 2015, teve...

depoimentos Os Prisioneiros da Caixa 2

Ao final de seu depoimento ao juiz Sergio Moro, dentro do acordo de delação...

história Conselhos eleitorais com 2.000 anos de validade

Políticos disputam eleições há milhares de anos. E, antes mesmo de Jesus Cristo nascer,...