opinião

Demonização e Paternalismo no Marketing Eleitoral

31 mar 15
Perfil

 

Instigada pela opinião publicada, a sociedade brasileira, seguindo tendência vista em outros países, escolheu seu bode: o marketing eleitoral ou, pior, os profissionais que o conduzem, os “marqueteiros”. Se a política vai mal e o nível moral dos governantes e parlamentares é sofrível, culpemos aqueles que os ajudaram a chegar ao poder. Se o eleitor segue elegendo, pleito a pleito, políticos que já mostraram pouco apreço pela ética, mirem-se as armas contra a propaganda. Afinal, estes feiticeiros conseguem convencer o povo que o branco é preto, que o errado é certo. À fogueira com os novos bruxos.

 

Este diagnóstico poderia estar apenas errado, fruto de um entendimento deficiente do que são correlação e causalidade. Não é porque aumentou o papel do marketing nas campanhas eleitorais nas últimas décadas que há uma relação de causa e efeito com os problemas vistos após a posse. Nestes anos viu-se também um aumento do uso da internet nas campanhas; o incremento do número de ações judiciais relativas às eleições; bem como o agravamento do aquecimento global e a disseminação do funk. Ninguém ousaria dizer que há relação de causa e efeito entre estes fenômenos e uma suposta debacle da qualidade dos governantes.

 

Infelizmente, não se trata de mera leitura equivocada dos fenômenos. A escolha do marketing eleitoral como Judas da vez embute uma visão paternalista, especialmente encrustada no Poder Judiciário. Parte-se da ideia que o “povo”, sempre o “outro”, é desenganadamente ignorante. Acredita no que quer que se lhe diga. E, por isso, precisa de ajuda, orientação, tutela. Quem pode ajudar? A elite, que é apenas intelectual, claro, não necessariamente econômica (o fato de rotineiramente estes grupos serem formados pelas mesmas pessoas é mera coincidência). Esta orientação, na prática, se dá pela invocação de uma mãe protetora, a Justiça Eleitoral, cuja missão – além de dizer em quem as pessoas podem votar – é a de decidir o que podem ouvir dos candidatos. Se ouvirem o que não devem, serão contaminadas e votarão “errado”.

 

Nos próximos posts pretendo dizer por que acredito que esta visão está errada e a razão pela qual ela mantém nossa Democracia numa eterna adolescência.

 

O paternalismo parte do pressuposto que a falta de educação formal torna alguém mais suscetível de ser enganado, sem levar em consideração que os maiores consumidores acríticos de informação são as próprias elites. Superestima o efeito da propaganda eleitoral na formação do voto; subestimando, de outro lado, o papel que a imprensa – concentrada e partidarizada – tem neste processo.

 

Desconhece os efeitos contraditórios que a propaganda falsa ou apenas negativa tem sobre o eleitor, muitas vezes prejudicando o candidato que dela se vale e beneficiando o adversário atacado.
Ignora os efeitos nefastos para a sociedade do controle de conteúdo da propaganda eleitoral, dado o esfriamento do debate público que acarreta e a redução do ceticismo que todos devem ter perante candidatos e partidos.

 

Por fim, enxerga uma sociedade com dois estamentos de cidadãos, os capazes e os incapazes de discernir o certo do errado, o que mina por dentro a própria Democracia.

 

(Fotomontagem: Ares Nguyen / Flickr)

Advogado, mestre e doutorando pela Faculdade de Direito da USP. Fundador da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político (ABRADEP) e presidente da Comissão de Estudos em Direito Político e Eleitoral do Instituto dos Advogados de São Paulo (IASP).
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