opinião

O Papel da Pesquisa Eleitoral

31 mar 15
Perfil

 

A pesquisa eleitoral cumpre dois papéis distintos e fundamentais numa eleição: um voltado para o marketing político e outro direcionado à informação dos eleitores brasileiros.

 

Pesquisas realizadas para informação dos cidadãos são feitas geralmente a pedido de veículos de comunicação, com o objetivo de monitorar, ao longo das campanhas eleitorais, a movimentação das opiniões dos eleitores. Não é objetivo destas pesquisas adivinhar o resultado das eleições, porque elas retratam um momento presente e não futuro da decisão do eleitor.

 

Com o acompanhamento dessas pesquisas ao longo de diversas eleições, temos percebido que a decisão de voto definitiva está cada vez mais tardia – e também volátil. As opiniões vão se formando ao longo da campanha, de acordo com as informações que o eleitor recebe de diversas fontes, inclusive dos próprios candidatos. Os eleitores esperam até o final para decidir em quem votar e podem mudar de opinião na última hora. Portanto, não faz sentido comparar resultados de pesquisas realizadas ao longo da campanha com o voto apurado nas urnas.

 

Muito se questiona sobre a credibilidade das pesquisas e dos próprios institutos, mas é importante esclarecer que, atualmente, para dar transparência ao processo eleitoral, as pesquisas que são realizadas com fins de divulgação devem atender à legislação vigente. Entre outros pontos, a lei determina que, cinco dias antes de sua divulgação, as pesquisas sejam registradas na justiça eleitoral, com informações que podem ser avaliadas pelos partidos e candidatos, assim como pela população em geral.

 

Para cada pesquisa registrada devem ser informados: quem é o contratante, quanto pagou por ela, a metodologia que será utilizada, o questionário que será aplicado, critérios de controle de qualidade, margem de erro amostral, entre outros. Após a divulgação dos resultados, os partidos podem pedir na justiça eleitoral acesso aos materiais da pesquisa.

 

Outra discussão é sobre a possível influência que os resultados de uma pesquisa podem ter sobre a decisão de voto do eleitor. Mas é preciso considerar que ela é apenas mais uma fonte de informação disponível durante uma campanha eleitoral e o acesso à informação faz parte do processo democrático. Cabe ao eleitor decidir se e como usar todas as informações.

 

Por outro lado, o segundo papel que cumprem as pesquisas durante uma campanha é auxiliar a equipe de marketing dos candidatos na definição de estratégias. Pesquisas desse tipo são realizadas com o
objetivo de entender o contexto político, econômico e social no qual a eleição se insere. Levantam as demandas da população para elaboração de políticas públicas e planos de governo, assim como avaliam os pontos fortes e fracos de cada candidatura, a comunicação da campanha, o desempenho dos candidatos nos debates, etc.

 

Essas pesquisas não são divulgadas porque contém questões estratégicas para os candidatos. Aqueles que souberem usar melhor esses resultados levam vantagem na disputa, já que uma das competências do marketing político é a habilidade em lidar com as informações positivas e negativas de cada candidato, da melhor maneira possível.

 

Aliás, o marketing político deveria ser uma atividade contínua de monitoramento do desempenho de agentes públicos e não restringir-se aos períodos eleitorais. Pesquisas podem avaliar o desempenho de administrações públicas e servir como instrumento de conexão entre a população e os governantes. Por meio delas é possível avaliar a satisfação dos cidadãos com serviços públicos prestados, auxiliando na definição e avaliação das políticas públicas, além da identificação de prioridades da população.

 

A pesquisa é um instrumento de marketing poderoso, desde que pautada em informações relevantes e, sobretudo, por uma visão estratégica de seu poder, assim como de seus limites.

 

(Ilustração: FECOMÉRCIO-PR)

Márcia Cavallari é bacharel em estatística pela Universidade de São Paulo, com mestrado em Ciências Políticas com concentração em Pesquisas de Opinião Pública pela Universidade de Connecticut, nos Estados Unidos. Está há 33 anos no IBOPE e ocupa, atualmente, o…
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