O aparato de mídia do Estado Islâmico

A mensagem, citando normas do século 7º, pode parecer medieval. Mas o meio utilizado para divulgá-la é de uma modernidade tamanha.

 

A facção terrorista Estado Islâmico (EI) utiliza uma complexa estrutura de comunicação nas mídias sociais para divulgar seus vídeos de decapitação e destruição de patrimônio histórico na Síria e no Iraque, onde estabeleceu desde 2014 seu autoproclamado califado.

 

Um relatório apresentado à ONU pelo pesquisador espanhol Javier Lesaca estima, por exemplo, que o EI tenha publicado mais de 920 campanhas audiovisuais em 22 meses, com o trabalho de 33 diferentes produtoras.

 

A estética, segundo Lesaca, é familiar ao público ocidental. Das gravações de execuções, quase metade foi inspirada em filmes como “Jogos Vorazes” e jogos eletrônicos como “Call of Duty”.

 

O EI tem forte presença em dezenas de plataformas virtuais. Seus militantes estão no Facebook, no Twitter, no Telegram, no WhatsApp e em aplicativos desenvolvidos pelos próprios terroristas.

 

Para o especialista em contraterrorismo Daveed Gartenstein-Ross, é no Twitter que militantes causam mais dano. Ali, atingem uma audiência gigante que não necessariamente tem afinidade com o terrorismo.

 

“Em outros lugares, eles falam a pessoas que já estão interessadas em suas mensagens”, diz. “No Twitter, podem interagir com pessoas que nem são simpatizantes.”

 

Governos e empresas de comunicação caçam esses terroristas on-line, mas o esforço necessário é hercúleo. Estima-se que o EI controle 100 mil contas no Twitter.

 

Há, além disso, um debate entre os líderes das ações de contraterrorismo. Apagar todos os perfis de militantes no Facebook, por exemplo, também significaria não poder rastreá-los e, assim, deixar de reunir um rol de valiosas informações para inteligência.

 

O exército que luta contra militantes nas redes sociais inclui grupos vigilantes como o Ghost Security, ligado ao coletivo de hackers Anonymous. Voluntários, seus membros rastreiam e atacam contas do Estado Islâmico.

 

“É verdade que o número de contas é astronômico, e é impossível remover todas”, diz o usuário Katronux, que não revela seu nome real. “Parte do nosso objetivo é identificar ataques em potencial e impedi-los”, diz. A informação é então repassada a governos, para que atuem.

 

“Não sou um soldado, mas faço o que posso para ajudar”, diz Katronux. “Lutar contra o terrorismo na internet é parte da guerra.”

 

Ferramentas como o Twitter, o YouTube e o Facebook são fundamentais para divulgar mensagens e vídeos, mas a comunicação mais sofisticada do EI está na “Dabiq”, sua revista oficial em inglês.

 

“Trata-se da peça mais ampla e influente da propaganda do EI”, diz o analista de segurança nacional Ryan Mauro, ligado ao projeto Clarion de contraterrorismo.

 

“Vídeos recebem mais atenção, mas a ‘Dabiq’ é publicada regularmente e possibilita enxergar uma ideologia, porque os militantes explicam por meio dela em que acreditam e citam suas fontes religiosas”, diz.

 

 

Califado Midiático

Como a facção terrorista Estado Islâmico divulga sua mensagem pelo mundo

 

 

Funcionários
Não se sabe exatamente quem são as pessoas por trás dessa imensa burocracia de comunicação. Mas seus líderes, como o porta-voz Abu Muhammad al-Adnani, são alguns dos personagens mais procurados pela coalizão internacional que combate o Estado Islâmico

 

Twitter
Estima-se que exista cerca de 90 mil contas afiliadas ao Estado Islâmico no Twitter. Esses perfis são constantemente bloqueados pela empresa —em abril, por exemplo, divulgou-se que 10 mil usuários foram deletados por publicarem “ameaças violentas” na rede

 

Vídeos
Segundo o pesquisador Javier Lesaca, o EI publicou mais de 920 campanhas audiovisuais, realizadas por 33 produtoras durante 22 meses. As cenas são similares ou inspiradas em filmes e games —por exemplo, a saga “Jogos Vorazes” ou o jogo “Call of Duty”

 

Notícias
O Estado Islâmico divulga suas ações por meio de mensagens curtas como as de uma agência de notícias. Elas costumam seguir o mesmo formato e estética, com repetidas referências religiosas (ocidentais, por exemplo, são mencionados como “cruzados”)

 

Revistas
A facção publica uma série de revistas em diversas línguas, como inglês, turco e russo. A principal delas é a “Dabiq”, produzida com design e conteúdo sofisticados. A organização terrorista anuncia suas atividades nessas revistas e explica, com argumentos teológicos, suas ações

 

Outros meios
A organização terrorista também utiliza outras redes sociais e meios, como o Facebook e o Telegram. Inclusive, seus membros desenvolveram um aplicativo próprio para smartphones. Além disso, há presença do Estado Islâmico em páginas de discussão on-line

 

 

Publicação original / Texto de Diego Bercito

Foto: portaldozacarias

 

 

 

 

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