Campanha curta, túmulo do candidato desconhecido

O espetáculo ilusionista em curso no Congresso Nacional, chamado por alguns de “reforma política”, ainda vai ficar no pingue-pongue por mais algum tempo. Ideias abstrusas aprovadas pela Câmara são rebatidas com outras do Senado e voltam à raquete de origem, para nova tacada sem rumo nem noção.

 

A crise política não se resolve, o governo cambaleia, a economia derrete e os senhores parlamentares decidem o futuro do jogo eleitoral nesse cenário aflitivo, nas horas vagas de outras graves preocupações.

 

Em meio às indefinições sobre a legislação que resultará desse processo, já temos ao menos uma certeza: as campanhas eleitorais serão mais curtas. Nas ruas, começarão em agosto, um mês depois do que ocorre hoje. E na TV e no rádio terão apenas 30 dias, em vez dos 45 atuais, que já foram 60 em passado não muito distante.

 

O efeito dessa mudança é claro: os candidatos mais conhecidos, com maior recall, terão vantagem nos próximos pleitos. Políticos experientes, artistas, esportistas, “celebridades” midiáticas, toda essa gente chegará às campanhas com uma imagem já fixada na mente dos eleitores e só terá de reforçá-la, associando-a a seu projeto de candidatura.

 

Já os novatos e os pouco conhecidos estarão na mídia sem cachorro. Não haverá tempo útil de campanha para uma construção eficiente de imagem e persuasão dos eleitores.

 

É claro que poderão ocorrer fenômenos do tipo Enéas Carneiro, o sucesso decorrente de algum truque de comunicação. Mas as pessoas votarão no truque, não no candidato. Ele poderá eleger-se sendo tão desconhecido quanto será pouco representativo, provavelmente, no exercício do mandato.

 

Mas os candidatos folclóricos são a exceção, não a regra. A carnavalização da campanha não é opção para todos os postulantes e mesmo os covers de Tiririca não têm garantia de conquistar o picadeiro ambicionado.

 

Campanhas curtas, portanto, tendem a produzir pouca renovação nos governos e parlamentos. É o exato contrário do que, supostamente, deseja o país, cada vez mais irritado e agressivo com os políticos que tem.

 

Decisões como essa são tomadas em nome da “voz das ruas” porque quem decide conta com a ingenuidade da freguesia. Sabe muito bem que os eleitores não atentam para os debates da reforma política e comprarão o peixe que lhes venderem, no embrulho em que ele vier.

 

Aos candidatos novos ou pouco conhecidos fica colocada apenas uma opção: começar a pré-campanha já, imediatamente, usando todas as ferramentas possíveis de comunicação para entrar no jogo eleitoral com um mínimo de chance, ou aguardar a campanha para comer poeira dos famosos.

 

O pequeno problema é que, salvo se esses candidatos forem ricos e se dispuserem a financiar a si mesmos, ninguém sabe ainda de onde virá o dinheiro para as futuras campanhas, ou se haverá gente disposta a ser presa no Paraná porque decidiu doar.

 

Como sempre neste país, que gosta tanto de empurrar problemas com a barriga, estamos às voltas com mais uma reforma do tipo que deforma. E o Congresso nem acabou ainda de montar os pedaços do Frankenstein…

 

 

Foto: themerrymonk.com

 

 

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