Muito além da sala espelhada

Os métodos e técnicas de pesquisa eleitoral, de forma semelhante às estratégias comunicacionais, derivam das experiências norte-americanas e adequam seus procedimentos das práticas aplicadas no mundo comercial. É uma herança nobre, mas também, em certo sentido, pobre.

 

Desde que me iniciei nos estudos e práticas de metodologia da pesquisa, no princípio de minha carreira acadêmica, o que tem me chamado mais a atenção, em relação às pesquisas eleitorais, é a relativa desconexão das técnicas e métodos com as realidades sociais do Brasil.

 

O debate metodológico costuma ser excessivamente árido e demasiadamente teórico, seja para formar pessoas, seja para repercutir nas práticas específicas das pesquisas de campo. Talvez por esta razão, ele não é muito feito e os institutos e contratantes em geral se contentam em repetir aquilo que se cristalizou como método.

 

A técnica mais aplicada, senão a única, nas qualitativas eleitorais é, sem dúvida, a de Grupo Focal. Apliquei-a nos mais diferentes ambientes: desde as famosas salas espelhadas e preparadas com câmeras e equipamentos de edição até ambientes improvisados em hotéis e escolas.

 

Acompanhei, em todos os casos, todo o trajeto desse tipo de trabalho. Desde as estratégias de recrutamento e filtro até os procedimentos de mediação e os processos de interpretação – variados e, não raro, entregues à livre percepção dos próprios clientes, ou seus profissionais de marketing e comunicação.

 

Frente a essa experiência, meu questionamento inicial era a artificialização dos contextos de pesquisa. Seres humanos reagem diferente, quando inseridos em ambientes de laboratório.

 

Nos grupos focais, a gente finge que a opinião política é produzida em animadas conversações das pessoas com gente que elas não conhecem, dentro de ambientes que elas não controlam, subordinadas a profissionais que elas acabaram de conhecer, e sob a vigilância de câmeras e pessoas que lhes são estranhas.

 

Minha insatisfação com o Focus Group consolidou-se quando percebi que, seja pelo relativo congelamento no tamanho da amostra, seja pelo fato da técnica de grupo não aproveitar todo o tempo de fala com todas as pessoas presentes, ele me fornecia menos informação qualitativa do que eu poderia ter se utilizasse outras técnicas.

 

Como aquelas – ponto que foi ainda mais importante – cuja interpretação pudesse ser enriquecida por dados de gestualidade e comportamento, ou pelos contextos georreferenciados, habitados ou controlados pelos sujeitos pesquisados.

 

Evidentemente, a minha conclusão não foi invalidar o método, considerá-lo inútil. Uso Grupo Focal até hoje, mas considerando-o não apenas pela perspectiva de suas possibilidades, mas também de seus limites. E, por tal razão, substituo-o sempre que posso, especialmente quando me é interessante perscrutar conteúdos e comportamentos que só fazem sentido nos ambientes naturais dos sujeitos pesquisados.

 

Foi então que passei a trabalhar a adequação à pesquisa eleitoral de técnicas combinadas de etnografia, observação participante e não participante, e entrevista em profundidade individuais ou em grupo.

 

O desenvolvimento metodológico combinado de estratégias de investigação qualitativa me trouxe a possibilidade de estabelecer produtos diferenciados de pesquisa, cujos efeitos já se fizeram sentir em várias campanhas eleitorais para as quais trabalhei.

 

Como, por exemplo, o acompanhamento de programas eleitorais de televisão (HGPE ou debates) pelo método que denominei “Mediação Familiar”, que trabalha com o georreferenciamento da determinação amostral e combina etnografia da família, observação não participante e grupo de discussão familiar.

 

Desenvolvi também a técnica de georreferenciar a amostra de qualitativas populacionais, com a aplicação de entrevistas em profundidade individuais ou em grupo junto a sujeitos situados em ambientes naturais de moradia ou fluxo, em regiões determinadas pelo contratante e pelos perfis buscados, usando ainda uma definição ex-post do tamanho amostral, na qual a pré-análise contínua da densidade dos dados determina in loco a amostra.

 

Atualmente, estou desenvolvendo uma técnica que tenho chamado, preliminarmente, de “Apresentação” ou “Turismo de Pesquisa”, que parte do convite aos sujeitos para se movimentarem com os pesquisadores pelos ambientes onde vivem a fim de descrevê-los e avalia-los, submetendo as técnicas de coleta e análise a categorias e testes que possam torna-las diferenciadas em relação aos métodos tradicionais.

 

A aplicação de tais inovações é complexa, exigente e, claro, não cabe num artigo como este, mas sua citação me parece suficiente para testemunhar o principal fruto que colhi dessa experiência de desenvolvimento metodológico: a aproximação extremamente proveitosa dos métodos, técnicas e procedimentos de pesquisa com a realidade social brasileira.

 

De um ponto de vista epistemológico, o critério é de colocar o método a serviço das realidades e contextos de leitura, e não o contrário, e, para fazer isso, romper com os padrões estabelecidos, a fim de situar a pesquisa no interior da vida e do pensamento dos sujeitos abrangidos. A quebra dos ambientes artificializados recoloca o pesquisador lá, aonde as coisas fazem sentido e produzem a opinião, as relações e o comportamento: as ruas, as praças, os bares, as casas, as empresas, as instituições de trabalho.

 

E, convenhamos, nada melhor para a política no Brasil do que informações coordenadas por um tipo de pesquisa que combine métodos científicos, capazes de ser fiéis ao fundo da experiência e das relações mantidas no mundo da vida do brasileiro humilde, em cujas mãos repousa a decisão de voto capaz de estabelecer os destinos do país.

 

 

Foto: nanosresearch

 

 

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