Em um cenário de horror, as eleições foram canceladas na cidade de onde desapareceram 43 jovens mexicanos, em setembro do ano passado. Votos foram queimados em praça pública, como símbolo da opressão e não da liberdade, por total descrença da sociedade no diálogo, no debate político.
Vivemos sob a maior crise de representatividade já vista nos países regidos pela democracia moderna. Uma doença com sintomas facilmente detectados nos EUA (onde há voto facultativo e apenas 40% dos eleitores se deslocam para votar), na Europa, na América do Sul, na África, na Ásia e, claro, no Brasil, onde as chamas da rejeição aos políticos queimam cada vez mais, de norte a sul.
É crise na educação, crise na segurança, crise na saúde, crise moral pela corrupção, crise, crise. E inicia-se um novo fenômeno, o da a criminalização do voto pelos próprios eleitores. A ineficiência da gestão política, que não se sabe para quem é feita, somada à falta de formação política dos eleitores, produz a descrença geral.
“Ni PRI, ni PAN, ni PRD”. Esta é a frase que apareceu pixada no domingo eleitoral, nos muros mexicanos, repudiando os partidos mexicanos mais poderosos, da situação e da oposição. É como se pichassem no Brasil “Nem PT, nem PSDB, nem PMDB”. Um sintoma inequívoco de perda da legitimidade política, vírus que toma conta do país amigo e do nosso país, jogando políticos sérios no mesmo balaio dos não sérios, aos olhos do povo. Venham de que lado venham.
Em Tixtla, no estado mexicano de Guerrero, o voto foi condenado à morte. No Brasil, uma parte dos nossos deputados legisla neste momento uma reforma política antivoto, que diminui o número de eleições, que decide sobre financiamento da política de forma cega e irresponsável, que demoniza a comunicação política, que propõe diminuir tempo de campanha, que tem como conceito combater a má política com menos política. Gastam poucas semanas para decidir sobre o que somos e o que vamos ser.
As cenas vistas no México são dignas do período da Inquisição, onde se queimava ideias diferentes junto com os donos delas, como se fossem ideias inimigas e não apenas adversárias das que estavam estabelecidas. Com todo respeito às famílias dos jovens mexicanos desaparecidos, sua indignação é compreensível no modo de sentir, mas inaceitável na maneira de agir. O linchamento é criminalizado nos países civilizados. Agora, o linchamento do voto aparece no horizonte.
Olhando para isso, eu me choco e penso no Brasil. Penso no tanto que lutamos pelo voto, na nossa estrada. Sim, a democracia ainda é o “pior melhor” modelo de regramento concebido neste planeta, para arbitrar os conflitos políticos. E o seu rumo é o do diálogo entre os diferentes, que hoje tanto nos faz falta. Está falando educação política e seriedade, no ambiente plural de ação dos políticos.