Um candidato a vereador ou a prefeito, ignorante do desamor do eleitorado pela política, é um indivíduo feliz em sua cegueira induzida ou inata.
O atual desamor pela política extrapola a desesperança. Nutre a descrença. É um niilismo em construção. O desamor, a desesperança e o niilismo são como cordas fixadas num pêndulo. É a energia gerada pelos revezes da cena política contemporânea quem cria a energia em cadeia. Faz-se o movimento. O pêndulo é o político. Um objeto decorativo. Lá e cá, sem música. Incolor. Sem narrativa. Num embalo monótono e mortal.
A descrença na política é o câncer do fazer político. É letal para a concepção da essência do político. Será o político o datilógrafo do futuro? Um extinto?
É feliz o candidato a vereador ou a prefeito com capacidade de abstrair todo este réquiem. Se a política perdeu o poder, como escreveu Moisés Naim (O Fim do Poder, Editora Leya), logo seus atores sucumbirão. “Os canais que ligam as pessoas ao governo são agora muito mais curtos e mais diretos do que antes e surgem cada vez mais atores capazes de intervir nesse processo e competir com os partidos no desempenho desse papel (de conexão). Cada vez mais as pessoas podem fazer sentir seus desejos e defender seus interesses, sem necessidade da intermediação dos partidos políticos”.
É admirável o candidato a vereador ou a prefeito, a postura inabalável diante deste armagedon. E pesa sobre ambos a dificuldade de driblar o fim do financiamento empresarial das campanhas. Conquistar um voto é ciência. É arte e também instinto. Agora hão de nascer a fórceps candidatos aptos a pedir votos e, simultaneamente, dinheiro. Sem dinheiro nenhum candidato é competitivo o suficiente. Uma agrura para os novos políticos. Uma facilidade para quem detém cargo e poder político.
Este é o abismo aos candidatos crentes de que a atual democracia ainda consegue dar respostas às pessoas. Há como reverter a mecânica deste pêndulo? Sim. Mas tudo isso requer uma nova narrativa, um novo coração e um novo sujeito político. Novas cordas. Um novo colorido e um som vibrante. Uma dose de saber político contra o “marketing eleitoral de entretenimento”. Este sim, um atalho para os políticos candidatos a datilógrafos do futuro.