Uma Terceira Via é viável?

Não gosto de trocadilhos, mas o do título deste artigo é quase necessário. Porque a possibilidade de um regime que combine os progressos do capitalismo com os benefícios do socialismo, sem praticamente nenhuma de suas contradições, é quase uma utopia.

 

Tenho debatido intensamente com amigos, com colegas de trabalho, com companheiros de jornada da campanha eleitoral de 2014 (na prática, a minha estréia na Comunicação Política) os rumos do Brasil. Faço isso compulsivamente e com enorme prazer. E não me canso de me espantar com o reducionismo que o confronto direita-esquerda tem imposto ao debate. E, infelizmente, ao país.

 

Mesmo o mais empedernido neoliberal há de reconhecer, se intelectualmente honesto, que o regime de liberdade econômica absoluta com estado mínimo produziu sempre muita riqueza e poder, mas raramente bem estar ou justiça social. Em países do Terceiro Mundo e nos em Desenvolvimento, fez pior: só aumentou a concentração de renda e aprofundou a miséria em largos setores.

 

Idem para seu antípoda socialista. Dificilmente iria reconhecer que esta forma de governar jamais produziu qualquer outra coisa que não fossem pobreza e ditaduras. Para disfarçar o fracasso, países que adotaram este sistema ideológico se justificaram tentando demonstrar a superioridade desses regimes com meias-verdades, como o desenvolvimento do conhecimento científico (URSS), da excelência esportiva (RDA, principalmente) ou da Saúde e da Educação (Cuba). Mas todos com a fome rondando suas portas.

 

Portanto, a solução da Terceira Via é a tentativa de reconciliação entre os valores de esquerda e direita. Rigor conservador na condução da política econômica. Mas com política social progressista. Crescimento econômico. Mas com distribuição de renda. Progresso. E inclusão pela maior participação da cidadania, com crescimento de emprego e renda.

 

A idéia não é nova. Tem raízes nas teorias de Lord Keynes, passando pelos bem sucedidos Welfare States do norte da Europa e pelos partidos social-democratas que se instalaram como governos ao longo dos finais dos anos 80, com a queda do Muro de Berlim, e o início do esgotamento dos modelos neoliberais capitaneados por Thatcher e Reagan.

 

Basicamente, se assenta na presença moderada, mas firme, do Estado, como formulador da política econômica e também regulador, sem excesso de intervenção sobre os agentes econômicos nem competindo com a iniciativa privada.

 

A carga tributária sendo destinada, sobretudo, à implantação de políticas sociais inclusivas e à suplantação das desigualdades, em vez do custeio da máquina estatal. Aliada a isso, uma política industrial voltada tanto ao mercado externo quanto ao interno e capaz de tirar o Brasil de sua eterna dependência da produção de commodities.

 

Tentativas já foram feitas nos anos 90 com o governo FHC e, depois, no primeiro governo Lula. Mas por partidos sem verdadeira vocação social-democrata, embora FHC tenha sido um dos defensores iniciais da Terceira Via junto com Blair, Clinton, Gerhard Schroeder e outros. A tradição fisiológica e patrimonialista da política brasileira além da corrupção endêmica e a longa cultura política conservadora, não permitiram até o momento a consolidação de um modelo de governo com as características da Terceira Via.

 

Mas sou otimista. Vejo nos destroços do que foi um dia o PSDB e do que é ainda o cambaleante PT, junto com elementos do PS, do PPS, da REDE e outros partidos, os alicerces de uma agremiação empenhada na construção de um estado democrático, com ampla liberdade política e econômica, com justiça social. Mas é luta para muitos anos.

 

 

Foto: skycrapercity

 

 

 

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