Um exército de trolls combate para Putin

Uma reportagem publicada na Revista do New York Times em 2 de junho causou espanto e curiosidade nos Estados Unidos. Segundo o repórter Adrian Chen, uma série de notícias falsas que circularam pelas redes sociais do Estados Unidos tiveram como origem uma agência de propaganda extraoficial do governo russo.

 

Pesquisando em jornais russos e em blogs de opositores ao governo de Vladimir Putin, o repórter do NYT chegou até o escritório de uma certa Agência de Pesquisas da Internet (Internet Research Agency), em São Petesburgo. Os depoimentos de uma ex-funcionária, Ludmila Savchuck, foram fundamentais para que Adrian desvendasse o esquema de produção de conteúdos e postagens na internet.

 

Segundo a testemunha, a agência mantém uma série de trolls, internautas que espalham mentiras e ataques pela rede, trabalhando numa verdadeira linha de produção de mídia digital. Apelidada de “fazenda de trolls” na mídia americana, a história lembra um roteiro de filme da Guerra-Fria, mas é bem atual.

 

Ludmila narrou ao repórter seu dia a dia de trabalho. Usando um sistema Proxy – ferramenta que dificulta a identificação do IP do computador –, ela alimentava perfis falsos em redes sociais. Os temas e assuntos dos comentários eram pré-selecionados e chegavam a ela como uma ordem do dia.

 

A cota diária de trabalho era grande. Em turnos de 12 horas, ela e cada um de seus colegas deveriam fazer 5 posts políticos, 10 posts não políticos (provavelmente para dar veracidade ao perfil) e entre 130 e 150 comentários em posts alheios, todos os dias. Os salários variavam entre 40 a 50 mil rublos por mês, algo entre R$ 2.300 e R$ 2.900.

 

Os temas selecionados para os comentários dão ideia da estratégia de mídia: alimentar o debate e as posições pró-Putin nas redes. Nas palavras de Adrian Chen, “poluir a internet com opiniões, até mesmo notícias falsas”. Postagens pró-grupos separatistas russos na guerra civil da Ucrânia, comentários positivos sobre a recuperação econômica do país, entre outros.

 

O que chamou atenção da mídia americana e motivou Adrian Chen a fazer a pesquisa foi, justamente, o fato dos trolls russos cruzarem as fronteiras. Em inglês e produzindo conteúdo falso, eles imitaram reportagens da CNN e de outros portais de notícias norte-americanos, para simular um acidente numa importante fábrica de produtos químicos em St. Mary Parish, no estado de Louisiana.

 

Rapidamente começaram a circular mais informações e comentários sobre o caso em perfis falsos, a maioria usando usando as hashtags #ChemicalColumbia, para espalhar a “notícia”. A história aparecia como um atentado e circulou inclusive um vídeo nas redes americanas, simulado, no qual supostos terroristas do Estado Islâmico assumiam a autoria do atentado.

 

Diversos jornais russos identificam que o dono e principal responsável pela Internet Research Agency é o magnata russo Evgeny Prigozhin. Conhecido também como Chef do Kremlin, Prigozhin é dono de uma rede de bufês de comida para festas de luxo, amigo pessoal e cozinheiro de Putin. O jornal oposicionista Novaya Gazeta vazou emails de Prigozhin, com comprovantes de pagamentos de sua empresa de comida para a agência.

 

Que a internet seja usada por governos, partidos e outros grupos políticos para fazer o combate ideológico, não é novidade. O espanto parece ser o volume de investimentos e a ação coordenada, o discurso em defesa de Putin. Os jornais russos falam em 400 empregados no escritório da agência.

 

Em maio de 2014, um editor do jornal inglês The Guardian se queixou da atividade na área de comentários do portal do veículo. Para Chris Elliot, havia uma ação coordenada para comentar notícias sobre a guerra na Ucrânia ou sobre a Rússia em geral.

 

As pesquisas do repórter do NY Times indicam que a atividade começou no final de 2011, após uma série de protestos contra o governo russo. De lá para cá, a internet tem sido uma preocupação do governo Putin. Diversas propostas de lei para regular o uso e a publicação de conteúdos são discutidas no parlamento.

 

Desde registrar os blogueiros famosos, até obrigar as grandes empresas como Google, Facebook e outras a armazenar informações em solo russo, são exemplos de como a batalha digital é importante para a política interna e externa de Vladimir Putin.

 

 

 

Veja entrevista do repórter Adrian Chen à PBS Public Broadcasting Service (em inglês):

 


Foto: Flickr/Joanthan Davis

 

 

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