Donald Trump e Hillary Clinton, em debate na eleição presidencial norte-americana, colocam o dedo na ferida de como devem se requalificar as campanhas eleitorais e seus profissionais. No centro do terceiro encontro entre eles, franco e cheio de baixas provocações, surge o verdadeiro tema que comanda a política do EUA neste momento.
Hillary quer saber: Trump reconhecerá o resultado das eleições? Trump se nega a responder. No seu estilo mordedor, diz que prefere esperar mais um pouco, para ter clareza do que dizer.
Hillary o relembra dos 240 anos de história dos EUA, onde um candidato derrotado jamais deixou de reconhecer os resultado de uma eleição presidencial. Mesmo assim, Trump bufa e fala para seus eleitores mais radicais: eu me dou o direito de responder isso após o pleito. Desse trunfo, não abro mão.
O que há por trás de tanta preocupação democrata com o reconhecimento de sua provável vitória sobre velhinho maluquinho: a legitimidade, a governabilidade.
A preocupação é de que o “estilo Trump”, ao negar a legitimidade de sua derrota, traga revolta às ruas, desmorone o Partido Republicano, desorganize o sistema político americano, crie instabilidade. Ele já ameaçou com essa hipótese. Fala para seus eleitores mais conservadores, que gritam a todo pulmão, amam as armas e muitos dizem que gostam de usá-las.
Alguém se lembra de algum cenário parecido? Dilma, claro, que ganhou a eleição e não governou o Brasil. As proporções e os riscos são diferentes, não há dúvidas, mas é disso que Hillary está tratando, ao inquirir Trump e tentar comprometê-lo, antes do pleito, com o reconhecimento da vitória.
Aqui fica a lição para o perfil de novas equipes de campanhas, e novos e velhos profissionais de comunicação eleitoral: ganhar já não basta, é necessário ganhar com olhos na governabilidade.
Foi isso que ficou claro na atuação de João Santana e em seus ataques na campanha de Dilma: volúpia de ganhar por ganhar, sem nenhuma preocupação com a governabilidade.
Se foi armadilha, não se sabe. Mas João Santana, com seu produto de comunicação fechado em si mesmo, ajudou a inviabilizar a governabilidade com seus ataques e seu estilo.
O resultado obtido – ganhar e não governar – é vitória? Óbvio que não, para não falar das outras consequências que o impedimento e a derrota trouxeram.
Havia como comprometer Aécio com o respeito ao resultado? Sim. Havia como atacar Marina de forma a deixar menos rastros e ódio? Sim. No fundo, era necessário ter consciência de que, naquele pleito, ganhar sem ataques à governabilidade era tão importante quanto ganhar.
Aécio pediu recontagem de voto no dia seguinte ao resultado final e se iniciou o processo de ingovernabilidade. que levou à queda de Dilma. Sua queda anunciada, o pós-campanha que sempre é brindado pelos eleitos, no caso dela foi se atar a um processo irreversível, no qual sequer houve o olhar para a necessidade de diálogo, de ampliação política, tão desgastado estava o ambiente.
Ou seja, a partir de agora, com os instrumentos de transparência na comunicação que surgiram, candidatos e equipe não podem se dedicar apenas a vencer, para depois ver como é que fica. Devem vencer sem destruir a governabilidade, se estiverem trabalhando em democracias, não ditaduras.
Tarefa difícil, que exige maturidade política. Mas ela responde a uma necessidade, que se torna a cada pleito mais aguda no mundo inteiro: a de enfrentrar a perda de representatividade. E de forma sólida, pois a exigência de coerência e desempenho se torna cada vez mais é permanente, neste mundo de política segundo a segundo.
Trump vai aceitar o resultado? Hillary quer saber. E assim, concordando ou discordando, ele já se vê no constrangimento de conspirar contra a democracia norte-americana. Não será tão fácil como foi aqui. Provavelmente, não acontecerá.
E mesmo assim, Hillary e sua equipe fazem campanha de olho na governabilidade.