Entre gritarias e xingamentos, trollagem e guerra na internet, excursão venezuelana de oposição e contraexcursão de situação, vai e volta do ajuste fiscal no Parlamento, pedaladas e contrapedaladas, vai se alongando a ressaca de 2014. O país segue polarizado, em plena tensão pós-eleitoral.
Aécio Neves busca liderar um dos lados dessa polarização. É seu direito e ele tem razões para agir nessa direção. A rejeição de 63% à Presidente Dilma, nas pesquisas atuais, mostra um ambiente propício para a oposição avançar e é sempre esse o seu papel: avançar sobre o poder e ocupar espaços.
À primeira vista, portanto, manter a temperatura elevada e o tom agudo parece uma tática eficiente. Mas, o que de fato interessa? Apenas chegar ao poder, a qualquer custo, da mesma forma que se acusa o PT de querer manter o poder a qualquer custo?
Está claro que chegar ao poder também coloca as questões de como se chegou lá, de qual governabilidade venceu e do projeto de país que foi debatido com a opinião pública.
É evidente que, caso se confirme a necessidade de impedimento de Dilma, por vias estritamente legais, ele avançará. Todos respeitamos a Constituição de 1988. Mas a pergunta acima chama os tucanos à reflexão. De que vale acirrar ainda mais a divisão do país, quando se tem a perspectiva de chegar ao poder pela via do voto, em 2018? “O tempo”, dirão alguns. “O risco dessa oportunidade passar”, dirão outros.
Neste momento, o PSDB se vê dividido entre os “ferozes” (liderados por Aécio Neves, Aloísio Nunes e Carlos Sampaio) e os “observadores “(liderados por FHC e Geraldo Alckmin). Estes simplesmente observam os resultados dos atos dos ferozes, mantendo silêncio, ainda que vários governadores tucanos já tenham se declarado contra o impedimento da presidente, inclusive Alckmin.
As ações dos ferozes vêm corroendo a governabilidade de Dilma, assim como o prestígio de Lula e do PT. O tempo vai passando e o país vive um dos momentos mais confusos de sua história política.
Em horas como essa é que devemos refletir sobre o espírito público na política. O que interessa ao país? A pergunta é de resposta difícil, pensarão muitos, ou é até ingênua. Mas, em tese, ela deveria ser respondida por todos os players. O que é melhor para o país?
Temos o calendário eleitoral oficial definido, com eleições municipais em 2016. As previsões são de vitória contundente da oposição, o que aumentará ainda mais a sua voz na vida parlamentar em 2017 e 2018, ano do pleito presidencial.
Sabemos de previsões internas do PT que o partido poderá eleger apenas 10% de seus candidatos em 2016. São apenas previsões, mas elas mostram que o próprio PT já conta com a perspectiva de enorme derrota, o que em tese, também explicaria as recentes declarações de Lula.
A questão do impedimento nos colocaria de novo perante o que a mídia denomina de “estelionato eleitoral”, mas agora às avessas. Passado o processo e vaga a presidência, que solução teríamos na economia, na política, em todos os campos, para atender as demandas reais? Estamos em pleno ajuste fiscal, com a credibilidade da nossa economia em xeque. Se a situação política se agrava, como o país se beneficia?
O processo democrático é o fiador da história recente do Brasil, após o regime militar. O impedimento pode se dar dentro das regras, como foi no caso de Collor. Mas só assim – e com garantias. Apostar num impedimento artificial, baseado apenas nas atuais pesquisas de aprovação do governo e da presidente, e nesse ambiente de confronto que está criado, faz sentido para um novo projeto de poder?
Seria ou não seria um gesto para superar a crise de representatividade, que hoje ataca o país? Ou seria o contrário, um gesto para aprofundá-la? As respostas são complexas e, mais do que nunca, o que se demanda é espírito público, da parte de nossas lideranças.
Talvez não seja conveniente para a oposição, estrategicamente, colocar o carro na frente dos bois. Melhor manter a oposição crítica e chegar ao poder de forma mais sólida, esclarecendo seu projeto de país.
Mas sabemos que o plano das intenções é bem diferente do campo das ações políticas objetivas. Vemos hoje todos os lados movidos pelo combustível do imediato, da conjuntura. Sentimos falta de que, ao lado da indispensável ação política conjuntural, venha também o pensamento estratégico. Para o esclarecimento de todos os brasileiros e o bem do país.