“Mudar não apenas as leis, mas os corações e mentes”. A frase é de Hillary Clinton, pré-candidata democrata à presidência dos Estados Unidos, num vídeo lançado ontem nas redes sociais e no site de campanha, em que defende o casamento de homossexuais.
O vídeo intitulado Equal – igual – é um sucesso de visualizações e comentários. Postado nesta quarta feira (24) na página de Hillary no Facebook, já atingiu mais de 37 mil visualizações e 40 mil compartilhamentos, em apenas 25 horas.
Equal, 2015
Além do retorno positivo e dos elogios de eleitores e da comunidade LGBT norte-americana, o vídeo também é notícia porque expressa uma mudança nas posições da própria candidata. Em 2004, quando era senadora, Hillary se disse contrária ao matrimônio igualitário. Seu posicionamento em sessão plenária do Senado foi largamente usado contra ela, nas disputas internas pela cabeça da chapa presidencial em 2008, pelo Partido Democrata.
Hillary fala sobre o casamento gay no Senado, 2004
A mudança de Hillary remete aos tempos em que seu marido era presidente dos EUA. Em 1996, o Congresso americano aprovou uma lei que permitia aos estados recusarem o casamento igualitário e Bill Clinton sancionou o texto, em setembro daquele ano. A medida ficou conhecida pela sigla DOMA, de Defense of Marrige Act (Lei em defesa do matrimônio).
Em junho de 2013, a Suprema Corte considerou o DOMA inconstitucional e o Presidente Barack Obama o revogou. Na prática, uma série de estados americanos passaram a oficializar a união entre casais do mesmo sexo, que puderam requerer direitos civis igualitários, como acesso a herança, pensões e seguro social. Mas, em decisão histórica no dia de hoje (26), a Suprema Corte reconheceu a constitucionalidade do casamento entre pessoas do mesmo sexo. O resultado obriga os 14 estados americanos que resistiam ao casamento gay a estender todos os direitos à comunidade LGBT.
No Brasil, o Supremo Tribunal Federal reconheceu o direito à União Estável entre casais do mesmo sexo, em 2011. Diferente do casamento, esse estado civil garantiu alguns benefícios para os homossexuais, como o direito à adoção, à comunhão parcial de bens e a pensões do INSS. Aqui e em diversas partes do mundo, a comunidade LGBT luta pelo reconhecimento do casamento civil igualitário, e não apenas pela ampliação de direitos. Quer a igualdade total com casais heterossexuais.
Diferente do que se passa agora com Hillary Clinton, os principais candidatos à presidência no Brasil fogem ao debate dos direitos LGBT. Em busca de votos conservadores, toda a chamada “agenda progressista” – aborto, legalização das drogas e direitos civis igualitários – é sempre tratada com extrema reserva por aqui.
Em entrevista recente à jornalista Terry Ross, transmitida pela National Public Radio, Hillary foi questionada se a sua mudança de posição era fruto apenas de cálculo político, ou de uma efetiva mudança de convicção pessoal. A candidata disse que sempre foi a favor do casamento de pessoas do mesmo sexo, mas que a situação política do país mudou nestes últimos 20 anos.
Ela disse que há muitos ativistas à frente de seu tempo, mas que a grande maioria do país está acordando agora para questões como essa. Hillary não cita diretamente, mas dialoga com as pesquisas de opinião, que confirmam o acerto de sua estratégia. Os americanos são hoje, de fato, em sua maioria, favoráveis ao casamento entre pessoas do mesmo sexo.
Para o jornalista Connor Friedsdorf, a resposta de Hillary a Terry Ross foi uma peça de retórica perfeita. Sem manifestar oportunismo eleitoral, Hillary salienta que defende a posição agora porque ela se tornou um tema importante no debate sobre direitos civis no país.
A mensagem usada no vídeo Equal não deixam a menor dúvida quanto a isso: “Alguns sugeriram que os direitos dos gays e os direitos humanos são coisas separadas e distintas. Mas, na verdade, são uma só e igual. Ser LGBT não faz de você menos humano. E é por isso que os direitos gays são direitos humanos e e os direitos humanos são direitos gays.”