A maior crise que ataca a política brasileira neste momento é a crise de diálogo político. A falta de respeito ao pensamento alheio tem levado o Brasil a viver momentos muito difíceis, em que prevalecem a intolerância e a agressividade. Vemos isso em todos os meios de comunicação, nas redes sociais, nos parlamentos. OK, o embate político é duro mesmo, às vezes é áspero, mas a democracia é diálogo dentro do embate.
No meio disso entram os profissionais de campanhas políticas, com nossos portfólios, resultados e o profissionalismo que se pode agregar ao debate eleitoral. Por vários motivos, uma parte da sociedade brasileira parece demandar uma democracia sem marqueteiros. Essa é uma percepção subjetiva.
Na última eleição presidencial, Aécio chegou a apartear Dilma: “Por favor, candidata, pare de repetir frases montadas pelo seu marqueteiro e diga o que pensa”. A campanha dele contava com dezenas de profissionais de grande capacidade, de grande talento, que lhe davam suporte. Tratava-se de uma eleição presidencial num país continental, que não pode abrir mão das técnicas profissionais de comunicação.
Uma Profissão Relevante
Nós, marqueteiros modernos, partimos da premissa de que nossa profissão se torna cada vez mais relevante, porque o mundo caminha por afirmar cada vez mais a democracia, em ambiente plural. Conturbado, mas plural. Nesse sentido, o conceito democrático central é que nenhuma verdade contém todas as verdades. Se olharmos dessa forma o embate político, constataremos a importância dos profissionais que trabalham nesse ramo e concordaremos em fortalecê-los.
A ciência já confirma o conceito, que poderia produzir um arremedo de equação: Política = Comunicação. Nessa fórmula, o símbolo igual faz, por definição, o papel de um túnel, que os dois campos percorrem, em permanente movimento de ir e vir. Ou seja: não há como revogar o profissionalismo por decreto. Não há como proibir que haja boa comunicação e que se utilize a tecnologia avançada na produção de conteúdos, nos processos eleitorais.
Faz tempo que os teóricos analisam a mídia, no ambiente de disputa plural pelo poder. Há muito pensamento acumulado sobre o tema. Desde o surgimento do rádio e, posteriormente, da TV, o que vemos são os meios se expandindo como uma pedra jogada num lago, que produz ondas cada vez maiores. A cada dia, eles atingem mais cidadãos.
Assim tem sido com a comunicação e a política. O crescimento dos meios tem se mostrado democrático, inclusivo em todos os sentidos, da formação à informação e ao entretimento servidos agora universalmente, para tornar os discursos mais acessíveis. Para os ricos e para os pobres. Todos se informam, à sua maneira, sobre a realidade que lhes toca.
Nem santos, nem diabos
Se somos democratas, cabe a nós fazer nossa parte. É para isso que existe a “Comunicação = Política”. Para apresentar projetos de poder, explicá-los e vencer eleições com eles, mostrando suas virtudes. E também os defeitos dos adversários.
A comunicação política e pública tem que se basear na premissa de que o espaço para a crítica é uma conquista. Nos vários formatos que essa comunicação assume, em cada país, ela representa a possibilidade de algum equilíbrio no embate de ideias, no surgimento de novas lideranças.
Essa é a razão da existência de franjas eleitorais, direitos de antena, horários eleitorais. Eles existem na França, no Chile, na Alemanha, em dezenas de países, que decidiram criar espaços de comunicação onde o julgamento dos projetos de poder não esteja sujeito às opiniões de publishers, como correu no Brasil até a redemocratização, passando pela famigerada Lei Falcão.
Com 99% de cidadãos aptos votantes, um número nunca atingido no país (na eleição de Jânio, em 1960, foram 19,6%), desde a redemocratização vem nascendo uma sociedade com valores enraizados no povo, que agora enxerga a política, debate cada vez mais, aprende cada vez mais. Define-se como de direita ou esquerda, pró ou anti-PT, pró ou anti-PSDB, pró uma terceira via, adere a causas ambientais, de melhoria de eficiência de serviços, de transparência, etc.
Tudo isso assusta e, em meio ao temor, reaparece um fenômeno ancestral e eterno: a demonização dos políticos. Uma reação coletiva que conduz também à demonização dos profissionais de “Comunicação = Política” e de seu trabalho. Mas que não deixa de ser uma consequência natural do confronto de projetos de poder, afetando todos eles, independente de quem ganhe ou perca as eleições.
Vencedores não atacam profissionais vencedores. Em geral, são os perdedores que atacam os profissionais vencedores. Mesmo que o conceito de vitória não seja absoluto. Pode-se perder uma campanha com grandes ganhos de credenciamento futuro, para os projetos políticos derrotados.
Política com profissionalismo
Neste blog, os profissionais de campanha, atacados no conjunto das nossas obras, corremos algum risco de parecer ingênuos, mas propomos dialogar entre nós e com a sociedade. Queremos agir com foco no que pensamos ser a crise do diálogo. E fazer isso com transparência, acima das vaidades pessoais, de forma democrática. É hora de falar com a sociedade brasileira, dando transparência técnica ao nosso trabalho.
A nostalgia antimarqueteiro, propondo uma relação do cidadão com a política, direta, sem intermediários, é antiga. Em vários momentos da História, desde a antiguidade, políticos perdedores de várias estirpes pregaram uma volta ao passado, onde pseudamente havia política com menos influência da comunicação, com relação mais próxima entre candidatos e eleitorado. Essa política “pura” nunca existiu.
O que existe, sim, e devemos preservar é a política séria, clara, onde os argumentos se apresentam com o uso das técnicas criadas pelo homem para torná-los mais efetivos. Ao contrário de Goebbels, eterno vilão, não vejo na comunicação política moderna a estigmatização de nomes. Homens como Joe Napolitan, que coordenou a campanha de Kennedy; James Carville, que coordenou a campanha de Clinton, ou Jacques Seguélla, que coordenou a campanha de Mitterand, são profissionais reputados e respeitados, na contribuição que dão à democracia.
A negação do profissionalismo na comunicação dos projetos políticos é simplesmente ridícula. Teóricos de ponta, como Habermas, já entendem como regra do embate político a comunicação com uso livre da linguagem, em todos os meios. Entendem como inevitável o que muitos acusam de “estetização”. Entendem, principalmente, como inclusivo. Mais democrático, mais acessível.
Despolitização ou inclusão
As técnicas de entretimento, de humor, de discurso, de qualidade criativa nas campanhas eleitorais são utilizadas hoje em todo o mundo, sem contestação. Veja-se a presença constante de Obama na internet. Ninguém nos Estados Unidos chama Obama de ator. Trata-se de ser competitivo, criativo, politizado, despertar interesse, para que o povo mais humilde possa refletir, dentro sua realidade, a partir de seu “tema gerador” – como definiria Paulo Freire – e tomar sua decisão.
Querer uma comunicação política restrita em seus recursos de linguagem, além de jeca, é elitista. Eleitores sabem distinguir perfeitamente o que lhes interessa. Sabem enxergar a importância de cada projeto e o que há de verdade ou mentira nos discursos. Engana-se quem acha que vivemos num país de “cordeiros”, que se deixam ludibriar. Com 16 eleições pós-redemocratização, a experiência do eleitorado em acompanhar as campanhas e decidir sobre os projetos está consolidada.
Bodes na Sala
Por isso mesmo, nesse momento em que se forma o consenso de que uma Reforma Política é inadiável no país, há que se legislar com foco correto e não colocar bodes na sala. O regramento eleitoral pode e deve ser muito melhorado. Campanhas mais baratas são possíveis? Sim, se eliminarmos os custos que inflam desnecessariamente o processo e que estão embutidos na própria legislação.
Um exemplo: a política de alianças. Aí vai uma boa parte do orçamento das campanhas. Somam-se forças para ampliar os votos, mas somam-se junto com elas os custos dos partidos envolvidos, a conta ficando para quem estiver na cabeça da chapa.
A Justiça Eleitoral deve aperfeiçoar seus processos? Claro que sim e isso é feito de forma constante na regras eleitorais em todo o mundo. Mas qualquer tentativa retirar da comunicação política os instrumentos modernos, utilizados hoje na comunicação como um todo, será um atraso. Diminuir o espaço gratuito ou incluir regras que limitem o espaço de expressão, de criatividade, de monitoramento via pesquisas, ou de tecnologia de produção, será artificial e antidemocrático, quando se utiliza a equação Política = Comunicação.
Marqueteiros nasce, portanto, para contribuir com o debate brasileiro sobre o tema. Para ser um espaço onde se exercita o respeito às questões da comunicação pública e política. Onde os profissionais de todo o país se mostram, sejam eles gestores públicos de comunicação política, sejam profissionais do vasto mercado privado da atividade. Onde se debate a melhor técnica. E onde se pensa os aperfeiçoamentos a fazer e os novos caminhos a seguir, no que já é um trade, um mercado organizado em ambiente de competição sadia.
Este não será um blog de política. Será um blog de comunicação política. Qualquer brasileiro interessado no tema está convidado a participar do debate.