Je Suis Marqueteiro!

 

 

Um dia destes passei os olhos por meus sites e blogs preferidos e em um deles, talvez o mais incensado dos que tratam de política, me chamou a atenção, particularmente, o que se via encimando a lista de posts: “Dilma volta a apelar ao discurso cínico, mentiroso e marqueteiro”.

 

Evidentemente, a conotação dada à palavra marqueteiro aqui é pejorativa e serve ao autor para adjetivar de maneira negativa o discurso da presidente.

 

Quem escreveu esse título não buscava naquele momento expressar um juízo de valores a respeito de nossa atividade profissional. Afirmo isso por conhecê-lo bem e por manter com ele uma relação de mútua admiração de longa data.

 

Ele, como muitos outros, apenas buscava “aquele termo”, que se popularizou até ganhar vida própria, como adjetivo dentro dessa conotação depreciativa.

 

E fica então a pergunta: por que isso aconteceu? Por que o sentido distorcido de uma palavra que denomina uma profissão exercida por tanta gente séria ganhou tanta força? Que motivos poderiam ter contribuído para isso?

 

Quem sabe, talvez, o desconhecimento mais aprofundado acerca do que realmente fazemos?

 

Mas, o que faz afinal este sujeito, o Marqueteiro?

 

O Marqueteiro não sabe de tudo, mas tem que ser um generalista eficiente. Trabalha em equipe mesmo quando é do tipo vaidoso, que gosta de dar entrevistas e de parecer mais importante do que efetivamente é.

 

O Marqueteiro propõe coisas a partir de uma análise objetiva da situação, que compreende leitura criteriosa de pesquisas, sensibilidade política, anos de vivência eleitoral, conhecimento acumulado e, obviamente, talento.

 

Profissão de risco, meio que ridicularizada pela imprensa em geral. São Marqueteiros: jornalistas, advogados, publicitários, engenheiros, professores, cientistas sociais, antropólogos e qualquer um que saiba transformar uma informação, uma ideia, em uma mensagem poderosa.

 

Poder participar, entender, compreender, fazer, influenciar, disputar e, às vezes, prevalecer é um privilégio para poucos e o Marqueteiro qualificado é um profissional valorizado no mercado, que reconhece e remunera bem essas qualidades.

 

Aqui talvez uma outra razão, além do desconhecimento, para a antipatia despertada pelos Marqueteiros. Acredito também que a arrogância e prepotência de alguns colegas tenha contribuído para uma visão pouco lisonjeira da nossa atividade.

 

E tome mais antipatizantes!

 

Claro que isto não é uma prerrogativa dos Marqueteiros. Há gente deste tipo em todas as profissões. Padres arrogantes, pastores prepotentes, médicos, professores, jornalistas, pedreiros, motoristas de táxi, dentistas, barbeiros, garçons. Em tudo quanto é atividade humana, há de haver sempre a turma dos arrogantes, prepotentes, incompetentes e, felizmente, de seus opostos.

 

Nossa profissão será tanto mais respeitada quanto mais ela tiver seu caráter técnico valorizado. Não há e nem deveria haver um protagonismo acentuado no que fazemos.

 

Sei bem que a natureza de nosso trabalho – pessoas e atividades altamente midiáticas – torna quase impossível ficarmos confinados aos bastidores.

 

Também é verdade que o protagonismo do Marqueteiro é, quase sempre, inversamente proporcional à capacidade do candidato para formular, se posicionar, propor e assumir posturas.

 

Ao Marqueteiro cabe propor caminhos e estratégias, e ao candidato, decidir usar ou não. Muitas vezes cabe também ao marketing batizar nomes de programas de governo, mas a formulação destes programas vem das equipes do candidato.

 

Há Marqueteiros em praticamente todas as eleições do país, desde o mais simples município até as eleições presidenciais. Todo candidato a vereador, deputado estadual, prefeito, deputado Federal, Senador, Governador e Presidente procura ter ao seu lado um especialista e montar para si uma estrutura de Comunicação. Como sempre, pretensão e possibilidade caminham lado a lado.

 

Enfim, esta é uma profissão que oferece uma inigualável oportunidade de conhecimento e compreensão da realidade em que nos inserimos, seja no município, estado ou país. Quem, inclusive como eu, já trabalhou fora do Brasil em processos eleitorais, sabe da singular experiência que é um mergulho cultural de tal intensidade.

 

Por isso, a despeito de todas as incompreensões e dificuldades que ainda existem em torno de nossa profissão, ser Marqueteiro é uma das mais fascinantes e mais empolgantes atividades para se trabalhar, numa sociedade democrática complexa e dinâmica como a nossa.

 

(Foto: Wilson Severino / Flickr)

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