Um Voto pela Oralidade Brasileira

A gente mal lê jornal
Nem tem a tal da erudição
Mas qualquer fato banal
É fatal: vira canção
De fato este é o nosso real
Poder de transformação

 

No país do carnaval, todo mundo canta, dança, toca ou compõe pelo menos uma vez por ano. Talvez venha daí a nossa intimidade histórica com a canção e a contundência comunicativa dos versos musicados que nos atingem. Do samba enredo à cantiga de roda, da canção de amor ao jingle publicitário, há uma imensa variedade de gêneros e ritmos musicais disputando o hit parade nas paredes dos nossos chuveiros.

 

Comecei a compor nos anos 70,inspirado pela primeira paixão, e me lembro que já em 1977 a Editora Saraiva lançou uma série de disquinhos infantis com os personagens de desenhos animados de Hanna Barbera, que passavam na TV. Minha querida amiga, a escritora Edy Lima, que produzia e adaptava as histórias para o áudio, me chamou para criar as canções. Foi ela quem ensinou, a mim e a meu mano e parceiro Paulo Garfunkel , o ”know how da canção programática”. Daí não paramos mais.

 

Fizemos música para Elis Regina e Pena Branca e Xavantinho, peças de teatro, publicidade, contos de fada, programas de TV e, obviamente, jingles políticos. O processo criativo entre uma coisa e outra é muito semelhante. No jingle político, embora o conteúdo seja relativamente previsível (enaltecer as qualidades do candidato), o mesmo também ocorre com a canção romântica, que se não enaltece a ”bem amada”, invariavelmente chora uma separação. O desafio da originalidade sempre estará na forma, o que torna o jogo mais instigante. Afinal, como bem disse o poeta Mário Quintana, ”tudo o que eu penso, um grego já pensou antes de mim”.

 

Não raro me sinto mais à vontade quando componho para uma campanha política do que quando faço um jingle para determinado produto de varejo. Em primeiro lugar, porque os objetivos do cliente são mais bem definidos. Depois, por que há sempre um teor institucional, que nos permite uma liberdade poética e uma linguagem mais abrangente. E, finalmente, porque o profissionais que avaliarão a adequação da peça são experts em comportamento humano,o que  nem sempre ocorre com os diretores de marketing dos produtos industriais.

 

Já compus guarânias para candidatos do centro-oeste, baiões para o nordeste, raps para o sudeste, um ”boi” para a região norte, um country para o sul, sambas e rocks para candidatos a prefeituras de grandes cidades. Nunca coloquei minha música a serviço de uma causa que eu francamente desaprovasse. Como, por exemplo, aquela campanha pelo não-desarmamento do país.

 

Guardadas as divergências políticas ou ideológicas,a credito no formato canção como uma das formas mais sintéticas e criativas de veicular qualquer tipo de mensagem, principalmente no Brasil, com nossa rica tradição oral.

 

(Foto: Diário do Sertão Central)

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