De volta aos Tempos da Sacolinha

A recente decisão do Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores, de não mais aceitar doações de empresas, ainda aguarda o referendo do 5º Congresso Nacional do PT, marcado para 11  e 13 de junho, em Salvador. Mas, desde já, pode ser interpretada de duas formas: ou é jogo de cena para melhorar a imagem do partido, bastante comprometida pelo escândalo da Petrobrás; ou é um erro grave, de uma agremiação que conquistou o poder central do país e sabe quanto custa, literalmente, chegar até ele.

 

A medida já está em vigor, mesmo sem o referendo. Mas, indagado por jornalistas se o veto às doações empresariais limita-se ao caixa do partido ou se será aplicado também à arrecadação de seus candidatos, em disputas eleitorais, o presidente do PT desconversou. Ruy Falcão disse que, como não há eleição neste ano, isso não é assunto para agora e será discutido oportunamente.

 

É uma resposta que fortalece a tese do jogo de cena. O PT estaria atuando para a torcida, a própria e a adversária, na tentativa de se mostrar virtuoso, no momento em que a sua reputação é incinerada no noticiário sobre a Operação Lava Jato. Estaria tomando a iniciativa da recusar o dinheiro empresarial para dar exemplo, uma vez que defende o financiamento público das campanhas eleitorais, fazendo exceção apenas para a contribuição de pessoas físicas, em patamares limitados.

 

Se não for apenas uma manobra conjuntural de desafogo, a decisão é extremamente ousada, para dizer o mínimo. Segundo a resolução de 17 de abril, ela vale para os diretórios nacional, estaduais e municipais do partido. O PT pretende se financiar tão somente com a contribuição voluntária, individual, de filiados e simpatizantes.

 

“Tais definições são coerentes com nosso Estatuto, segundo o qual a ‘arrecadação básica e permanente do partido é oriunda de seus próprios filiados'”, diz o texto. “Ao mesmo tempo, condizem também coerentemente com a nossa defesa de uma reforma política democrática, que ponha fim à interferência do poder econômico nas decisões políticas”.

 

Haja sacolinha para pagar as futuras contas eleitorais… A campanha de Dilma Rousseff em 2014 custou R$ 350 milhões. A de Fernando Pimentel em Minas Gerais, a mais cara de todos os candidatos a governos estaduais, saiu por R$ 52,2 milhões. A de Alexandre Padilha, em São Paulo, por R$ 40,2 milhões. Os petistas responderam por uma parte considerável do R$ 1,146 bilhão, custo total das campanhas para governador no ano passado.

 

Essa dinheirama será, doravante, aportada pela contribuição de filiados e simpatizantes? É evidente que não. Por mais que a base partidária seja mobilizada para o esforço de arrecadação e doe recursos generosamente ao PT, vai faltar dinheiro para a realização de campanhas nos moldes atuais. O downsizing será compulsório.

 

É imaginável isso? Depois de conquistar por quatro vezes consecutivas a Presidência da República, com campanhas eleitorais de alta qualidade técnica e inegável eficácia política, mas de custo elevado, o PT vai recuar aos padrões de competição dos anos 1980? Vai voltar às campanhas franciscanas, enquanto seus adversários provavelmente seguirão bem abastecidos de recursos?

 

Com essa decisão, o PT parece buscar o aplauso de quem jamais o aplaudirá, os muitos adversários que acumulou com o desgaste inevitável de 12 anos de poder. Apoio interno não lhe falta, de gente petista iludida, sem a menor ideia da realidade das disputas eleitorais. Mas a medida tende a produzir danos sérios, especialmente se for derrotada, na Reforma Política, a proposta de financiamento público, como indica a correlação atual de forças no Congresso.

 

Na melhor das hipóteses, caso o veto às empresas não se estenda também a seus candidatos, a escolha de postulantes poderá se dar por sua capacidade arrecadatória individual, o que estimulará uma luta fratricida pela busca dos recursos. Na pior, o PT poderá ser simplesmente excluído do jogo de poder, por incapacidade financeira de fazer campanhas competitivas.

 

Terá sido um eloquente gesto retórico. E um certeiro tiro no pé.

 

 

 Foto: imgkid

 

 

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