Um jingle ruim que virou canção de sucesso

 

As músicas da dupla Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira fazem parte do imaginário nacional e são cantadas e regravadas ainda hoje. O que pouca gente sabe é que um grande sucesso da dupla, Paraíba, nasceu como jingle de campanha, em 1949. De versos engraçados, a composição foi escrita para as eleições ao governo paraibano, em 1950.

 

A letra ficou marcada pela interpretação irônica dos versos Paraíba / Masculina/ Mulhé Macho/ Sim Sinhô!, de conotação sexual. Mas, na verdade, foi escrita com outro propósito. Dominique Dreyfus, biógrafa de Luiz Gonzaga, conta que a encomenda foi feita pelo chefe da Casa Civil do presidente Eurico Gaspar Dutra, que queria um jingle para a campanha – vitoriosa – de José Américo de Almeida, do PSD.

 

Gonzaga estava no auge, era uma estrela da Rádio Nacional. Os jingles e o merchandising eram prática comum nos programas de rádio e ganhavam peso no período eleitoral.

 

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Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, a caráter

O paraibano José Américo era advogado e integrava o grupo político de João Pessoa, presidente do Estado da Paraíba entre 1928 e 1930 e candidato a vice presidência derrotado na chapa da Aliança Liberal em 1930.

 

A articulação dos paraibanos com os políticos de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul formou a Aliança Liberal, derrotada nas urnas, mas vitoriosa no golpe que depôs o governo em 1930.

 

Em julho daquele ano, o assassinato de João Pessoa pelo rival local João Dantas serviu de estopim para um golpe, que buscou impedir a posse de Júlio Prestes, vitorioso em março. Os revolucionários de 1930 alegavam que as eleições tinham sido fraudadas, prática comum na época, e não reconheciam o resultado das urnas.

 

Coube a José Américo o papel de articulador civil do movimento, que teve apoio do Exército para depor também uma série de governadores.

 

Golpe ou revolução? O movimento de 1930 entrou para a história como um movimento que contestava o domínio das oligarquias paulistas sobre o Governo Federal. Setores progressistas da época apoiaram o golpe, na intenção de diminuir a influência de grupos locais que apoiavam o PRP – Partido Republicano Paulista.

 

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José Américo de Almeida

Quando Humberto Teixeira escreveu a letra de Paraíba, queria exaltar justamente a participação de José Américo no levante de 1930. Depois do golpe, Américo foi nomeado interventor no estado pela Aliança Liberal. Em 1950, tentava voltar ao poder, dessa vez pelas urnas.

 

A “mulher macho” da letra era uma alusão à combatividade paraibana, ao estado guerreiro. Mas, segundo a biógrafa Dreyfus, uso da expressão resultou num tremendo tiro no pé. Já em sua primeira apresentação num palanque, ela teria gerado uma grande briga, com muitos feridos e presos. Dividiu, em vez de unir os simpatizantes do candidato.

 

A polêmica, porém, impulsionou a canção no rádio. A primeira gravação foi do conjunto Quatro Ases e um Coringa, com Emilinha Borba e o sanfoneiro Orlando Silveira. Assim como outros sucessos de Luiz Gonzaga dessa época, foi lançada primeiro pelos colegas de rádio, mas logo passou a integrar o repertório do artista.

 

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Emilinha Borba coroada Rainha do Rádio

Politicamente, o Rei do Baião era um tipo confuso e conservador. Em 1973, anunciou sua intenção de sair candidato a deputado federal pelo MDB, mas manteve ao longo da vida muitos contatos com políticos da ARENA e de viés conservador.

 

Tocou em vários eventos oficiais, como a recepção do presidente norte americano Harry Truman no Governo Dutra, ou em eventos para o Humberto Castello Branco, já no período da ditadura. Fez várias declarações elogiando os presidentes militares na imprensa.

 

Apesar de narrar a vida sofrida dos sertanejos, Gonzaga nunca criticou abertamente os coronéis do sertão. No fim da vida, ele mesmo tornou-se um articulador político em sua terra natal, Exu, no sertão pernambucano. Usava seu prestígio para trazer benefícios para a cidade e suas festas e shows atraíam líderes de diferentes regiões.

 

Quem saiu candidato de fato, nas eleições de 1955, foi o parceiro no jingle Paraíba. Humberto Teixeira lançou-se para deputado federal pelo PSP, mas não conseguiu o número necessário de votos. Acabou como suplente e foi diplomado para o mandato de 1955-1959. Teixeira contou a Dreyfus que Luiz Gonzaga foi o seu financiador, já que ele não tinha dinheiro algum para concorrer ao cargo.

 

Já nas eleições de 1960, Luiz Gonzaga fez jingles para a campanha presidencial de Jânio Quadros, do PTN. Depois de JK/só serve JQ/ Tem que ser bonzinho/ pro meu voto merecer, diziam os versos. Mas o jingle que marcou esta eleição foi mesmo a marcha Varre, Varre, Vassourinha, de Maugeri Neto.

 

Havia também um jingle cantado por Gonzaga para a dobradinha de Jânio com Carlos Lacerda, em campanha ao governo do Estado da Guanabara. Tenha calma meu amor/ Não se desespere meu bem/ Jânio Quadros vem aí/ Carlos Lacerda vem também, era o recado ao eleitor. O compositor fez ainda um jingle para o ex-senador Nelson Maculan, candidato ao governo do Paraná, também nas eleições de 1960.

 

Confira abaixo duas versões de Paraíba e jingles de campanhas políticas passadas:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Fotos: Domínio Público

 

 

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