A crença na política significa compreender o seu poder de comunhão. Uma virtude esquecida pela maioria das pessoas. Realçar essa virtude é um dos caminhos para salvar o fazer político da ojeriza.
Degradar o fazer político só incita a debilidade e morte de um governo. A entrevista do jornalista Geneton Moraes Neto, com o ex-presidente Fernando Collor de Mello, em seu livro “Os Segredos dos Presidentes” (Editora Globo, 2005), denota bem este quadro.
O atual senador envolvido na operação Lava-Jato considerou como um dos seus principais erros no cargo adotar uma postura beligerante com os congressistas. Optou por sepultar o diálogo. Desde que tomou posse até a sua derrocada da Presidência, Collor manteve, inadvertidamente, esse relacionamento intolerante com o Congresso Nacional.
Motivo? Nas páginas do livro ele realça o seu dissabor com o fazer político. Lê-se sua inaptidão pelo diálogo, pela comunhão, enfim, pela busca do consenso no exercício da Presidência da República – como se ainda estivesse pilotando a sofrida República alagoana.
O presidente ‘impeachmentmado’ já foi o exemplo mais popular de um crescente agrupamento de políticos em rota de colisão com a política. Infelizmente, eles se multiplicam pelas cidades do interior de São Paulo.
Não é raro ouvir desabafos inusitados de ocupantes de cargos eletivos, que denotam cansaço sobre a necessidade de fazer política para atingir um resultado desejado. São sinais inescapáveis de um desejo de governar sem dialogar e respeitar os demais poderes constituídos.
Tendo a acreditar que essa incongruência, do político que não gosta da política, é fabricada pelo reducionismo característico da nossa época, de farto conhecimento e pouca reflexão. O vazio de conhecimento sobre a essência da política é latente.
Política é uma ciência. Mas ela também é gesto, como escreveu o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em “A Arte da Política”. O fazer político é o campo onde se apaziguam as diferenças. É uma aventura em que há embates, há participação popular e se constitui o instrumento conhecido pelo homem, no qual se inicia a organização social. Defendo que a política é repleta de virtudes. É preciso lembrá-las.
O grande desafio da política é criar as condições para que se passe da defesa dos interesses particulares para a construção e a defesa do interesse geral, escreveu Marco Aurélio Nogueira em sua obra “Em Defesa da Política” (Unesp, 2001). É ela, ainda segundo o professor, que nos ajuda a integrar desejos, vontades e interesses numa convivência coletiva.
Cabe lembrar que essa tese é contestada pela postura oportunista de alguns estrategistas, interessados em fazer ruir a política apenas para privilegiar a classe política vigente. Esse oportunismo deliberado tem como ambição beneficiar os velhos políticos.
Cabe a nós denunciar essa prática e não ceder a frases feitas que associem política ao horror. É preciso preservar a notabilidade da política, a fim de protegê-la dos seus detratores. Crer na política é compreender seu poder de comunhão com as pessoas.