Rastreando o voto, para mais certeza da escolha

Com meus 35 anos de profissão na área de criação de sistemas informatizados, faço algumas sérias reflexões para avaliarmos nosso sistema de apuração de votos. Já fui inclusive presidente de mesa em época de eleição, por quatro vezes, nos tempos em que os votos eram somente em papel. A pressão pela responsabilidade dos papeizinhos era imensa!

 

Mas vamos lá. Responda-me: você colocaria dinheiro depositado em um banco que não te oferecesse o recurso de, a qualquer tempo, você poder auditar a movimentação de sua conta corrente? Saber se “algum dinheiro” sumiu de sua conta sem comprovação?

 

Claro que a resposta é não! Entretanto, consentimos em depositar a nossa convicção política de mudar o rumo da administração pública deste país em um sistema que não nos oferece nenhum recurso de auditoria do voto, em tempo algum.

 

Isso mesmo. Se quisermos validar em quem votamos, qual a ferramenta que temos disponível para isso?

 

Vi hoje um site onde podemos aderir a um abaixo assinado que exige a comprovação de nosso voto eleitoral: http://www.peticaopublica.com.br/pview.aspx?pi=BR80853. É uma iniciativa. É a maneira de protocolar uma briga. Mas não sinto que as pessoas conversem sobre isso. Tudo parece que morre no dia da eleição.

 

Depois de tanto dinheiro gasto nas campanhas, de tanto horário político, de tanta sujeira com papeizinhos que imundam a cidade, depois de prender pessoas que fazem “boca de urna”, depois de o jornalismo mostrar políticos votando com crianças no colo, depois de tanto falatório nas mídias, depois de tanto xingamento e brigas, depois de tanto suspense, depois da sociedade discutir  o destino do país e pesquisar a historia dos candidatos, depois de tanta coisa…. tudo parece que se encerra à noite no dia da eleição, à medida em que os resultados vão pipocando nas telas do jornalismo.

 

Para encerrar o grande exercício democrático, vêm as justificativas para os resultados, as análises e a cara dos novos administradores públicos vão aparecendo, uma a uma.  E pronto.  Nosso destino está selado e a discussão democrática acabou em um sistema que não tem nada de democrático, que é o Sistema de Apuração de Votos Eleitorais.  Democracia é “isto é nosso” e não “isto é meu”.

 

Por fim, murmuramos mais algumas coisas entre amigos e familiares nos próximos dias, e aguardamos pelos resultados das próximas gestões. Como podemos acompanhar os candidatos que votamos, se sequer conseguimos provar que votamos neles?

 

Se o sistema não pode ser auditado popularmente, ou seja, se qualquer cidadão que não concorde com os resultados não pode confirmar se o seu voto foi registrado digitalmente, da maneira como ele votou, então o “sistema é questionável”.

 

Mas ninguém questiona o sistema? Não se fala sobre isso? Aceita-se o resultado como se tivéssemos sigo julgados pelo TSE. Eu, TSE, declaro os resultados!!! Amém.

 

O eleitorado nacional saltou de 135.804.433 pessoas em 2010 para 141.824.607 em 2014, um incremento de 4,43%. Isto, conforme o TSE.

 

Sabemos que, se não votarmos, o sistema nos aponta e nos deixa em débito. Temos que pagar uma multa para regularizar a situação de eleitor, que pode implicar em sanções nas operações que viermos a realizar, tanto em nossa vida pessoal como na profissional.

 

Ao contrário, como podemos provar que uma massa enorme do eleitorado, em regiões menos providas de recursos (o que não é raro no Brasil), não votou ou teve seu voto realizado automaticamente, por um sistema informatizado?

 

Tudo na esfera do Sistema de Gestão de Apuração do Voto corre a sete chaves. Como as pesquisas nos informam, as posições sempre acabam se distorcendo diante dos resultados. A apuração final acaba sempre “explicada” pelo pronunciamento geral do “jornal eleitoral”, na época dos pleitos. Tudo fica esclarecido e assim nos conformamos. O assunto morree vamos para mais um período com o “nosso candidato”.

 

Se não há sistemas abertos de auditoria, quem nos garante que não estamos diante de uma das maiores corrupções que podem existir, a manipulação do voto eleitoral? Quem opera os sistemas de apuração? Como os votos vão sendo descarregados no servidor central, que acumula os resultados do país inteiro?

 

Cada urna, quando descarregada no sistema integrado de apuração, é imediatamente esvaziada após. Onde ficam os registros dos votos apurados nas urnas eleitorais? Na “lixeira”.

 

O processo esvazia a urna jogando os dados para o servidor e dá reset nos dados da urna, com a premissa sistêmica de que o voto é SIGILOSO! Nesse exato tempo da transferência, muita coisa pode acontecer.

 

Certa vez, fui convocado para realizar auditoria técnica nos sistemas informatizados de uma grande rede internacional de fast food. A missão era verificar o desvio de caixa no final do dia. Pois acontecia nas lojas exatamente isso que aponto acima, nas urnas eletrônicas.

 

No final de cada dia, as lojas descarregavam seus valores para o servidor central. Exatamente nesse momento, o pessoal da área de sistemas inseriu um procedimento de desvio de dinheiro, que levou ao montante de US$ 35 mil por dia, em média. Faça as contas. Uma rede com 24 lojas em São Paulo. U$ 35 mil vezes 30 dias = US$ 1 milhão por mês!

 

Se existe uma coisa em que o brasileiro não pode ser negligenciado é na sua capacidade de “burlar” sistemas. Grandes hackers da informática e produtores tanto de vírus como de vacinas para eles estão no Brasil.

 

Ou seja: diante de tantas denúncias que estão vindo à tona nos últimos tempos, de escândalos de desvio de verbas, que peso devemos dar aos que estão no poder e abusaram dele? E ao fato de estarmos de mãos atadas para validar a presença de “tais pessoas” no poder, com a premissa de que lá estão pelos nossos votos?  O que é pior? O roubo ou o roubo ser ainda justificado sarcasticamente, dizendo-se que “nós os colocamos no poder”?

 

Não aceito este sarcasmo de que os colocamos no poder. Como eu posso comprovar que não fiz isso? De que este candidato não corresponde à “insignificante/frágil tecla” que apertei no simbólico dia do exercício de democracia e de onde saí com um papelzinho, que prova que votei naquele dia e a minha assinatura que deixei naquele livro?

 

Ainda que fôssemos auditar os livros (porque, nessas alturas, onde será que estão guardados?), eles nos mostrariam somente que estivemos ou não presentes. Não dá para rastrear 150 milhões de assinaturas em livros.

 

Acredito que se quisermos retomar aos trilhos da seriedade no exercício de cidadania, nas próximas campanhas eleitorais – que devem vir com mais bombas do que nunca -, gostaria muito que uma dessas bombas apontasse à necessidade de revisão total dos critérios do Sistema de Apuração de Votos Eleitorais. Para que tenhamos um extrato de  “contas correntes” normal, como o de um banco, onde podemos confiar em guardar o nosso dinheiro.
Foto: conews

 

 

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