Comprovante de voto no papel, um tira-teima absurdo

Eduardo Castro comenta:

 

Acordo com mais um retrocesso: a Câmara aprova a volta do papel nas eleições. Com base no que? “Suspeitas”. De quem? Quantas? Em qual escala?

 

Dá licença. Achar que contar papel é mais confiável que um sistema eletrônico vistoriado pela Justiça e por todos os partidos é inacreditável.

 

Acompanhei, como repórter, toda a eleição americana de 2000 – a maior fraude eleitoral de que eu já estive próximo. Lembra? Demorou 37 dias. Era um tal de recontagem, justiça daqui contra justiça dali. Terminou com uma ordem da Suprema Corte: o vencedor foi esse.

 

Uma roubalheira consentida – lá não há justiça eleitoral, são os partidos que definem tudo e as regras são diferentes em cada estado. Ou seja: em cada lugar era do jeito que o partido mais forte ali achava que seria mais fácil de ganhar.

 

Tinha máquina de furar num lado, lápis preto do outro, caneta azul num terceiro – pra, no fim, cair tudo numa mesa e ser contado a mão. Sem falar de coisas no nível de Libertadores da América – atrasar o início da votação, soltar boatos no meio do dia pra turma não ir mais votar. Uma várzea. Ruanda, onde também cobri eleições, me deu melhor impressão.

 

Eu olhava tudo aquilo – nos Estados Unidos, Ruanda, onde fosse – e batia no peito: no meu país, a eleição é asséptica. Mais de cem milhões de pessoas votam – na floresta, nas plataformas de petróleo, na fronteira, até no exterior – e conhecemos TODOS os eleitos em questão de horas, cada vez mais rápido.

 

Há possibilidade de fraude? Há, porque sempre há. Mas é pequena. E nunca houve um único fato que pudesse colocar essas urnas em dúvida em grande escala.

 

Não interessa. “Suspeitas”. Então tá.

 

Andar pra trás é uma característica marcante desse Congresso que elegemos. Em breve chegaremos a 1914, e a primeira guerra começa de novo.

 

Nota: sim, entendi que a Câmara não determinou a volta das cédulas, mas o uso de um comprovante de papel. Mas só a ideia de usar o papel como tira-dúvida já é absurda. Por tudo que expus acima.

 

 

Eduardo Castro é jornalista. Foi repórter na Rede Bandeirantes e diretor-geral da EBC-Empresa Brasil de Comunicação. Atualmente, é comentarista esportivo.

 

 

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Foto: uel.br

 

 

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