É impossível comparar os cenários políticos do México e do Brasil. São histórias e circunstâncias diferentes. Mas os acontecimentos no México pré eleição de domingo (7), onde se renova parte do congresso e governadores, dão uma idéia da responsabilidade da sociedade brasileira de fazer uma Reforma Política consequente, com base em amplo debate na sociedade.
Assassinatos, tortura, já ocorrem desde março entre os políticos mexicanos. Há o narco, o narcotráfico poderosíssimo, para explicar uma parte disso. Mas não é esse o motivo das manifestações violentas que vem ocorrendo e que ganharam força nunca vistas ontem (4) e hoje (5) no país.
A questão central do conflito é a Reforma Educacional, que levou os professores mexicanos às ruas. Eles reivindicam 100% de aumento, entre outras coisas. O governo atual, para tentar acalmar a situação, voltou atrás numa decisão central, atendendo a uma das principais reivindicações e a mais simbólica entre os professores: suspender a avaliação periódica de seu trabalho. Isso, segundo o sindicato, é uma medida humilhante para a classe.
Mas ao contrário do que se esperava, os ânimos não se acalmaram. Ontem, o aeroporto de Oaxaca foi bloqueado por manifestantes que ameaçaram bloquear também a cidade do México. Eles marcharam gritando a seguinte palavra de ordem: “Si no hay soluciones, no hay elecciones”. A ideia é impedir que as eleições aconteçam, embora os analistas garantam que isso não ocorrerá. O México vai urnas em pleno temporal.
A política, mostra o México, vai se tornando uma atividade de alto risco. Por que? Pela tremenda divisão do país. Não há nada mais terrível para qualquer país do que a perda de credibilidade de suas instituições. O risco é o de ver os eleitores gritando contra o voto. O desprestígio completo do voto.
Aqui, querem diminuir o número de eleições, não há propostas para de eleições primárias, não se combate as distorções geradas pelas coligações com base apenas em interesses eleitorais e ainda ameaçam restringir o tempo de TV e diminuir o tempo de campanha.
Me lembrei da famosa frase do comercial criado por Jaques Lewkovitch, para um comercial de vodka nos anos 80: “eu sou você amanhã”. O famoso “efeito Orloff”.
No Chile, anuncia-se uma Reforma da Constituição para ser debatida durante todo o ano que vem, não em duas semanas como aqui. A seguir o andar da nossa carruagem, na Câmara dos Deputados teremos uma não reforma antivoto. Os riscos que a atual Reforma Política feita de afogadilho nos traz são enormes, pode nos levar a ser um México amanhã, não bastassem os problemas que vemos hoje.
Correto seria modificar o que existe de mais distorcido nas regras atuais e mantê-las. E tratar de conquistar uma Reforma do Estado mais ampla, que pode ser feita até através da eleição de uma Assembleia Constituinte revisora em 2016.
Ser sério é necessário, mesmo que às vezes pareça sonho.