A crise de representatividade dos partidos e políticos tradicionais, sentida em manifestações de rua, redes sociais, conversas e noticiário, foi quantificada em pesquisas realizadas pelo Instituto DataFolha e Ibope. Uma delas, publicada semana passada, mostrou que Lula (PT) tem rejeição de 55%. No entanto, o dado que mais chamou atenção nos levantamentos foi a rejeição do eleitorado a alguns opositores do PT, que em tese deveriam estar com a popularidade em alta por estarem, na disputa pelo poder, em polo oposto ao dos atuais mandatários.
O senador José Serra (PSDB) tem 54% de rejeição, seguido pelo governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), com 52%, Ciro Gomes (PDT) com 52%, Marina Silva (Rede) com 50% e Aécio Neves (PSDB) com 47%. Vale lembrar que Alckmin foi reeleito no primeiro turno, que Marina chegou a liderar a corrida presidencial e que Ciro não participa de disputas eleitorais há um bom tempo. Já Serra e principalmente Aécio Neves são grandes críticos do governo federal, com o mineiro defendendo até o impedimento de Dilma Rousseff (PT), a campeã de rejeição atualmente.
Outra pesquisa, referente à popularidade dos partidos, mostrou que 71% dos eleitores de São Paulo não têm preferência por nenhum partido político. O dado é revelador, considerando que a maioria dos 35 partidos existentes possui sede na capital paulista, que o engajamento político dos paulistanos é intenso e que a cidade sempre foi palco de grandes manifestações.
Em síntese, os eleitores estão muito insatisfeitos com os políticos e os partidos. A oposição ao PT, apesar da crise, não representa o porto seguro que a população busca. Além disso, a oposição ainda não encontrou o discurso que poderá, nos próximos pleitos, trazer vitórias eleitorais.
O eleitorado está afirmando que o PT passa por um calvário, mas não é a oposição direta e seus políticos que tem as respostas, ou um novo caminho. A crise não é somente econômica ou moral, como outras dezenas que o Brasil atravessou. Vivemos algo mais intenso, que deverá resultar em quebra de paradigmas. O atual período histórico, iniciado na redemocratização em 1985, está no seu limite. Nos próximos anos vamos passar por mudanças significativas, na forma de fazer política e de representação.
As novas tecnologias mudaram as relações sociais, o engajamento político e o nível de consciência política da sociedade, defende o sociólogo espanhol Manuel Castells. Porém, o modus operandi no Brasil continua o mesmo: paternalismo, fisiologismo, clientelismo, falta de espírito público e corrupção.
A crise existe porque a população, com os novos meios de informação, como as redes sociais, está mais informada, consciente e exigente. O eleitorado também passou a enxergar o Estado do ponto de vista de consumidores, e os serviços como saúde, segurança, mobilidade urbana e habitação não são satisfatórios como deveriam ser. Outro problema que contribui para o sentimento de falta de representação nos atuais políticos e partidos são os frequentes casos de corrupção.
Nesse contexto, é interessante notar o nascimento de partidos com a Rede Sustentabilidade e o Partido Novo, e a construção da Raiz Cidadanista. Esses novos agrupamentos são uma tentativa de captar os discursos dos protestos de junho de 2013. Naquela ocasião, as pautas tinham como alicerce uma nova forma de fazer política, sem os partidos tradicionais e seus representantes. Outro dado interessante é a simbiose das novas legendas com a militância virtual, as redes sociais e a estética da internet.
Em minha opinião, esses partidos agregam alguns elementos que poderão, de fato, alterar de forma fazer política, justamente por se apresentarem como o novo. As novidades estão na ordem do discurso, na maneira de divulgar os ideais, nos estatutos, no destaque para pautas como a sustentabilidade, a estética e até a forma como os militantes se vestem. Outro fator a ser considerando é a capacidade de comunicação de tais legendas no ambiente virtual, como o similar Podemos, que tem grande audiência na Espanha e Europa.
No entanto, para avançar, o Partido Novo precisa refinar estratégias e táticas. Para o típico brasileiro, ele está muito à direita. Em razão disso, corre o risco de ser visto como uma sigla de gente engomadinha. Já a Rede e Raiz ainda são vistos como “coisa de universitário bicho-grilo” e precisam perder esse exotismo de “gente que abraça árvore”, segundo o olhar dos mais pobres. O discurso dos novos partidos também precisa vir acompanhado de novas práticas. Caso contrário, será mais do mesmo.
O cenário está aberto para crescimento de novos partidos e lideranças. Crises políticas são ótimas oportunidades para isso. Para chegar ao poder no Brasil, na maior parte dos casos, é necessário estar próximo do centro. Essas legendas sabem disso e deverão fazer concessões, o que é normal na política. Mas chegar ao centro não deve significar fazer acordos de roubalheira, para saquear os cofres públicos.
Os novos líderes terão a missão de governar para uma sociedade conectada e sedenta por serviços públicos satisfatórios. Torço para que as mudanças no fazer político, que estão se desenhando no horizonte, sejam no sentido de conferir mais dignidade aos brasileiros e que isso resulte em mais qualidade de vida, cidadania e defesa intransigente dos direitos humanos.