O tema não é importante. Raramente teve relevância, mas sempre está presente em todos os cenários políticos, o tempo todo: a desinformação produzida por enquetes sem valor estatístico.
Acabo de ter acesso a uma “enquete” divulgada por César Maia, político do Rio de Janeiro com fama de marqueteiro, onde aparecem em empate técnico na disputa pela prefeitura carioca o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL), o deputado federal Jair Bolsanaro (PP) e o senador Romário (PSB).
A notícia surpreende. Um empate como esse aponta para a possibilidade de que, no Rio, qualquer resultado, com qualquer viés ideológico, é viável, o que contraria toda a história política carioca. Claro, fomos aos detalhes.E abaixo da manchete, em letras bem menores, vimos tratar-se de uma enquete de 450 entrevistas.
Ou seja, para um colégio eleitoral como o carioca, com mais de 4 milhões de eleitores, apenas 450 entrevistas. A margem de erro estatística do trabalho de César Maia é, seguramente, de mais de 10%. Mas ele coloca o resultado em manchete. E nada menciona sobre a margem de erro. Ou seja: oferece desinformação, da mais pura e simples.
Temos tradição no ramo das “enquetes”. Por definição, enquete é um levantamento de opinões sem controle do “campo” pesquisado, que não obedece a nenhuma técnica de corte pelo perfil do eleitorado. Ou seja, ela reúne informações de botequim e, o que é pior, do mesmo bairro, da mesma rua. Como informação, seu valor é zero. Trata-se de um “apanhado” de posições, quase sempre sem nenhuma isenção e sem nenhuma menção à falta de valor real dos dados.
Mas, como arma política, às vezes funciona. Em 1985, tivemos uma estratégia com base em “enquetes” diárias que funcionou. A rádio Jovem Pan, de São Paulo, passou a entrevistar “eleitores” nas ruas durante toda sua programação e 90% deles respondiam, ao vivo, que votavam em Jânio Quadros para prefeito, contra Fernando Henrique Cardoso.
Era o dia inteiro. A insistência era tanta que começamos a perceber que a rádio estava claramente espalhando um boato que não correspondia à realidade, porque FHC liderava nas pesquisas técnicas, tanto as públicas quanto as internas. Mas, com o boato, a Pan mudava opiniões e influía no pleito. Perdíamos votos todos os dias.
Tentamos todas as instâncias jurídicas para interromper a ação da rádio e nada funcionou. Não foi possível tirar a “enquete” do ar. A Justiça Eleitoral da época, herdeira da ditadura, entendia esse perfil de divulgação de “dados” como informação jornalística… E no final, com a derrota de FHC, ainda houve gente que louvou a “tecnicidade” do “trabalho” da Jovem Pan.
Em 1988, a divulgação de enquetes foi proibida. Hoje veiculam-se apenas os resultados de pesquisas registradas, com seus questionários e critérios colocados à disposição da Justiça Eleitoral, para acesso de qualquer cidadão. Mas, com a chegada das redes sociais, e mesmo antes dela, a moda das enquetes parciais nunca passou. Sempre foi utilizada para vender gato por lebre.
O jornalista Ricardo Noblat, em seu blog, faz enquetes todos os dias. Os temas vão da cor da Lua aos direitos dos aposentados. A revista Veja, em sua versão on-line, também divulga enquetes todas as semanas. O jornal digital Brasil 247 igualmente faz enquetes com regularidade.
Os casos são inúmeros e defendem as teses mais esdrúxulas. Temos enquetes afirmando que a população quer a volta dos militares e até que existe grande simpatia pela monarquia. Quem gosta de se informar está sujeito a cair no “conto da enquete” a qualquer momento. E a formar opinião a partir de informações isoladas, movidas por interesses.
Verificar é essencial. Ficar bem de olho na enquete. Lixo para ela. Convém sempre conferir a atualidade e a qualidade técnica de toda informação eleitoral que chegar às mãos.
Enquete faz candidato gato virar lebre. Faz candidato favorito despencar só no papel, na opinião de quem divulga. E faz eleitor espalhar informação falsa sem nem perceber.