Os Meios de Comunicação e a Prática Política

Conclusão de artigo de Luis Felipe Miguel, professor do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília:

 

 

A compreensão da relação entre o campo da mídia e o campo político é fundamental para o entendimento do funcionamento da política contemporânea.

 

Os meios de comunicação não são canais neutros que “registram” uma realidade que lhes é externa. Também não são penetras que perturbam uma atividade política que, no fundamental, ocorre sem eles; nem são mais, como disse Bernardo Kucinski se referindo aos barões da imprensa da primeira metade do século 20, meros “chantagistas que se imiscuíam no jogo regular de poder das elites dominantes” (*). São agentes políticos plenos e, com a força de sua influência, reorganizaram todo o jogo político.

 

Do reconhecimento do influxo da mídia sobre o campo político não se depreende a dominação da política pelos meios de comunicação. Os efeitos da mídia são variados, de acordo com as situações específicas em que se inserem, e sofrem a ação de contratendências e resistências.

 

Há um processo permanentemente tensionado de embate entre as lógicas do campo midiático e do campo político, que necessita ser observado em detalhe e dentro de sua complexidade. Decretar que a política “se curvou” à mídia é tão estéril quando negar a influência desta sobre a primeira.

 

O principal erro é julgar que os efeitos da mídia sobre os agentes políticos são uniformes. Em realidade, a influência dos meios de comunicação é diferenciada de acordo com a posição dos agentes no campo político; o volume de capital simbólico que cada um deles possui impõe reações diversas à midiatização da política.

 

De maneira mais ampla, entre os fatores que devem ser levados em consideração estão a configuração das instituições políticas (a começar pelo sistema eleitoral e partidário), a trajetória de cada agente – qual seu ponto de partida, até alcançar a situação atual – e as posições que pretende alcançar.

 

Como hipótese geral, é possível dizer que, quanto menor o volume de capital político (ou quanto mais marginal for a posição no campo político, o que significa a mesma coisa), maior a dependência em relação à mídia. Quanto maior for a marca midiática no capital político (isto é, uma carreira alicerçada na popularidade obtida no ramo do entretenimento ou do jornalismo televisivo), menores as chances de êxito em disputas por cargos-chave. E quanto mais elevadas as posições de poder que se pretende alcançar, maior a necessidade de visibilidade nos meios de comunicação

 

A relação se torna mais complexa na medida em que o próprio campo da mídia não é autônomo, pois incorpora, em parte (significativa, aliás), objetivos derivados do campo econômico. O círculo se fecha com a percepção da influência mútua entre os campos político e econômico — cujas expressões mais evidentes são o financiamento de campanhas eleitorais e o lobby empresarial, para a ação no sentido da economia para a política, e o efeito das medidas de política macroeconômica e dos contratos governamentais, no sentido inverso.

 

A compreensão dessa rede de influências cruzadas permite entender a utilização da mídia como forma de pressão política em busca de objetivos econômicos, um fenômeno comum em estados periféricos, onde jornais ou emissoras de rádio e TV podem estar a serviço de empreiteiras ou concessionárias de serviços públicos, mas observável também em centros maiores ou em âmbito nacional. Neste caso, a colonização da empresa de mídia pela lógica econômica não ocorre na forma da luta pelo mercado, mas da busca deliberada de determinados resultados políticos.

 

A tarefa de desvendar o jogo político atual passa pelo entendimento da inter-relação entre esses três campos. É um esforço que não admite atalhos simplificadores, do tipo A determina B; antes, exige o reconhecimento das tensões latentes (e por vezes até expressas) que marcam a complexa conjugação entre as influências mútuas, resistências, composições, ajustes delicados e anseios por autonomia que animam os diversos agentes de cada campo.

 

* Kucinski, A síndrome da antena parabólica, p. 167

 

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POR LUIS FELIPE MIGUEL – REPRODUZIDO DA REVISTA LUA NOVA nº 55-56 (2002)

Foto:Mike Licht / Flickr

 

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