Ser contra a política: um clichê

Paulo Corrêa comenta para Marqueteiros:

 

Ser contra a política é um clichê, um mantra e um lugar-comum. Essa verdade universal (de que a política é imprestável) é alimentada, inclusive, por atores do ambiente político. Aliás, estes são seus piores algozes. Rasuram a reputação da política para não serem acossados por amigos​, parentes​, colegas de trabalho​ numa roda de conversa​.

 

Contraditoriamente, aqueles que sonham em conquistar um cargo eletivo também contribuem para a marginalização da política. Contudo, mantêm firme seu propósito eleitoral. A discrepância é grande. É a mesma coisa que pensar num operador do direito em conflito com a justiça, num romancista descrente da literatura ou num jogador de futebol que despreza o gol. Não faz sentido.

 

Como explicar esse paradoxo? Sobra oportunismo de um lado e covardia por outro? Sim. Mas não é só isso. A tendência de simplificar temas complexos é uma praga do nosso cotidiano. Pior, produz preconceitos.

 

Advogar em favor da política é abraçar suas qualidades, não sua vilania. Contudo, é muito mais simples tê-la como vilã. Cai bem para uma sociedade adoradora de rótulos e fã da simplificação: isso é bom, isso mau, aquilo é descolado ou aquilo é antiquado. Não somos dados a pensar além da superfície. É uma espécie de anorexia cognitiva.

 

Acontece que os políticos ainda são idealizados na atualidade como guias. Não à toa são citados em metáforas como pastores, médicos, ou em outras posições, onde são associados à sabedoria, experiência e a uma boa capacidade de fazer a coletividade sonhar com o bem. Daí advém a vigília monumental sobre o político.

 

Ao capitular moralmente, o político alimenta a indústria do escândalo, que, por sua vez, nutre o nosso ceticismo, faz agonizar a política e escoa o poder aos detratores da política.

 

A estafa generalizada com os efeitos contraproducentes da política chega às raias da beligerância. Nasce daí um desejo incandescente das pessoas pela erradicação da política do nosso cotidiano. E há quem patrocine esse sentimento, para atingir a hegemonia ou tonificar seu domínio político.

 

De fato, no seio da política não reside a justiça. A política não é boa, a política não é má. A política sequer é romântica, mas inspira a aventura humana a engendrar ideais.

 

Mas a política é útil e cheia de virtudes. Você aí interessado em ter acesso ao poder ou mantê-lo, não destrate a política. Pelo contrário, ressalte suas qualidades. Por meio da política conseguimos fabricar o consenso, em contrário viveríamos em ambientes totalitários.

 

Mas não devemos idealizar demais a política. A política não se basta em si. Sequer ela é palco da justiça. Mas isso não quer dizer que devemos destratá-la. É mais que hora de sair em sua defesa.

 

 

Paulo Corrêa é graduado em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo. Pós-graduado na ABJL (Associação Brasileira de Jornalismo Literário) e com MBA em Marketing pela Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba)​. Atuou como repórter político na RMC (Região Metropolitana de Campinas) e na RMVALE (Região Metropolitana do Vale do Paraíba). Foi editor de publicações semanais em Limeira e assessor de imprensa no setor sindical e privado. Integrou o núcleo de comunicação de campanhas eleitorais ​como redator, no interior de São Paulo. É  autor do e-book Poder Político.

 

Foto:Flickr/Midia Ninja

 

 

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