A página do Facebook Cédula Anarquista, um trocadilho com a designação clássica de “célula” para os pequenos agrupamentos de esquerda, resgata o espírito contestador do artista Cildo Meirelles, levando mensagens políticas contra o sistema capitalista às notas de Real.
Criando personagens com os animais símbolos das notas – a Tartaruga Anarquista, o Professor Mico Leão e a Garça Abortista -, a iniciativa utiliza o dinheiro e a sua enorme circulação para disseminar mensagens críticas à sociedade de controle e o consumismo contemporâneo.
A página é anônima e, muito provavelmente, resulta de um esforço coletivo para disseminar observações e frases de protesto. O trabalho é inspirado no pensamento anarquista clássico, mas as mensagens, na maioria, são interpretações livres dos textos. Algumas são literais, trazendo a referência de seus autores.
Além da capacidade de circulação física das mensagens, Cédula Anarquista pega carona na popularidade das redes sociais para atingir ainda mais gente. Não se trata apenas de uma guerrilha silenciosa, mas uma estratégia de comunicação para as massas digitais indignadas do século XXI. Uma legítima peça de humor político inteligente.
Apesar de não haver uma referência direta, a página remete ao trabalho clássico Inserções em Circuitos Ideológicos, criado pelo artista plástico brasileiro Cildo Meireles, em 1970. Usando primeiro garrafas de Coca-Cola como suporte e depois passando para as notas de Cruzeiro, a intenção do artista era criar intervenções artísticas que pudessem circular pelo mercado de trocas. Um protesto artístico nas mãos do povo.
Os objetos escolhidos por Cildo eram icônicos do momento vivido pelo país, a ditadura militar e o imperialismo norte americano. As notas com as frases “Quem matou Herzog?” e “Yankees Go Home” foram sensação na época, já que colocavam na rua aquilo que o regime não permitia dizer. Usava um suporte de produção exclusiva do estado (o dinheiro) para criticá-lo e uma mercadoria (a garrafa de Coca) para questionar a iniciativa privada capitalista.
Eis algumas das notas em circulação, com as mensagens anarquistas:
Foto: Reprodução




