Antes do lançamento do blog Marqueteiros, Gabriel Priolli havia me pedido um artigo, mas eu atrasei. Só agora resolvi cumprir minha obrigação e saí em busca de um tema que, aliás, estava na minha cara. O segundo Fora Dilma.
Antes quero dar alguma informação sobre o que eu entendo como nossa profissão. Estratégia política é como jogar xadrez, cada um tem a capacidade de antever um número de jogadas a frente. Os melhores são os capazes de ver mais longe e aqui entram inteligência, vivência e visão histórica. Eu respeito os profissionais da nossa área quando são menos militantes, mais sérios e críticos em relação aos problemas de seu cliente.
Bom, dito isto, deixa eu meter minha colher torta nesse movimento Vem Pra Rua. No dia 15 de março, por dever de profissão e a pedido da minha filha mais nova, caminhei até a Avenida Paulista, para ver como ia ser o protesto “coxinha” contra a presidente Dilma Rousseff.
A convite do meu amigo Zeca Rodrigues, então diretor de criação da Adag, participei das Diretas Já como profissional, editando vídeos de 15 segundos, chamando para os comícios. Mas fui lá também como militante. Afinal, estive também no culto ecumênico em homenagem a Wladimir Herzog, além de outras passeatas contra a ditadura militar.
O movimento Fora Dilma, comparado a estes outros, é uma verdadeira salada ideológica, mas nem por isso menos democrático. O tema principal era a corrupção e outras tantas variantes. Mas o que me interessa é discutir a importância da estratégia política, a vivência e o conhecimento histórico dos movimentos.
O que houve? Ou, que erros os organizadores cometeram para esse esvaziamento? Não caia na análise fácil de que a vida da presidente está mais fácil. A pesquisa mostra que a popularidade da presidente continua em baixa e, infelizmente, a economia não dá mostras de melhorar. Então, por que murchou? É aqui que começa nosso trabalho.
De cara, um problema é a multiplicidade de objetivos, fator que fez o sucesso da primeira vez, mas complica a sequência dos eventos. Na Paulista existia um sem número de pequenos comícios. Se um grupo defendia a volta dos militares, outro virava a cara não gostando da história. Outros gritavam “Fora Dilma” e boa parte queria os corruptos na cadeia. Havia também os que gritavam contra o Lula, contra políticos ou contra o Congresso.
Problema também é a proximidade dos eventos. Quando saí da Paulista, já anunciavam a nova data, 12 de abril. Pensei comigo na hora: vai ter menos gente!
Outro fator é a falta de liderança única, a multiplicidade dos carros de som, cada um com um tipo de discurso. O único fator que unia a multidão era o verde-amarelo e o hino nacional. Os meninos que deflagraram a ação via internet provavelmente não pensavam que seria tão grande. Na verdade, ninguém imaginava.
Para mim, o maior erro foi a marcação dos eventos todos num único dia, no Brasil inteiro, com uma única nuance – o horário. Mas essa variação é muito pouco.
Nas Diretas Já, por exemplo, os eventos faziam uma verdadeira volta no Brasil, em cada capital era uma festa. Isso fazia o público ir aumentando a cada comício. Principalmente, não cansava o cidadão que trabalha e pode dispor de um dia para protestar, mas não pode cumprir uma agenda de protesto todo mês.
Diferente disso é o panelaço, que ninguém precisa sair de casa, é barulhento, mas, mais cômodo.
Um trabalho bem feito de assessoria, estratégia e marketing político poderia ajudar a evitar estes deslizes.