Biografias são arma de campanha mal aproveitada

Inês David Bastos analisa no Diário Económico (Portugal):

 

Os livros entraram definitivamente no léxico dos estrategas políticos e eleitorais, como uma arma de campanha. Sejam ensaios sobre o pensamento político do próprio autor, sejam biografias, os livros ganharam lugar no marketing político e são hoje usados para criar candidatos e para passar a mensagem, dizem peritos em comunicação.

 

Vários são os políticos, sobretudo os que têm aspirações a cargos públicos, que decidem passar para livro as suas propostas e pensamentos, ou encomendar uma biografia que conte o seu percurso de vida. As últimas conhecidas são as de Rui Rio, que está de olhos em Belém, e Passos Coelho, que tenta um segundo mandato em São Bento.

 

João Tocha, especialista em comunicação e marketing político explica que “o lançamento deste tipo de livro insere-se num processo de posicionamento de um actor político”. Por outras palavras, é mais um instrumento na estratégia de criação de um político ou candidato ao poder. Mas Tocha diz que, por si só, o livro “não vale muito” porque não vende junto das massas. Contudo, “inserido numa estratégia global, e se for bem feito, vale qualquer coisa”.

 

António Lobato Faria, director-geral da editora Clube do Autor, acrescenta que “estes livros podem e devem ser utilizados pelos políticos para divulgar os seus objectivos e princípios”, tal como se faz há anos nos países anglo-saxónicos. Lobato Faria considera, contudo, que em Portugal “este meio tem sido mal aproveitado” por duas razões: “surgem a menos de três meses da eleição e o seu conteúdo está centrado no elogio ao candidato e na mensagem eleitoral”. O que leva a níveis fracos nas vendas.

 

Também Tocha defende que estas obras devem ser lançadas anos antes do candidato avançar. Barak Obama lançou o seu livro em 2004 e foi eleito em 2008.

 

Zita Zeabra, directora da Atheleia, que acaba de lançar a biografia autorizada de Passos, reconhece que nem sempre as vendas são boas, mas atribui relevo aos livros “porque é um capital importante que fica”. João Tocha acrescenta que “servem para o político demonstrar que tem pensamento político estruturado”.

 

Praticamente todos os políticos já escreveram livros ou viram outros escrever as suas biografias, autorizadas ou não. Seguro lançou em 2011 (quando iniciou corrida a São Bento) o livro “Compromisso com o Futuro”; Mário Soares tem várias biografias e ensaios; Marcelo Rebelo de Sousa também; Durão Barroso lançou “Mudar de Modelo”, em 2002, antes de subir ao poder; Sócrates tem a biografia “Menino de Ouro do PS” e Guterres e Sampaio também viram o seu percurso em livro.

 

Para uns, o ensaio ou a biografia num momento estratégico é mais um instrumento de campanha, para outros pretende ser “uma pedrada no charco” em períodos-chave, isto é, contestar o partido no poder e provocar uma mudança.

 

Marques Mendes, ex-líder do PSD, lançou em 2008 um livro com o título “Mudar de Vida”, onde fazia o diagnóstico do país e apresentava objectivos para o futuro. “Percebi que o país ia no mau caminho e achei que, dada a experiência acumulada, tinha o dever de partilhar”, disse o comentador ao Diário Económico.

 

Naquele ano, já Passos, de quem Mendes é próximo pessoal e profissionalmente, estava a preparar-se o regresso ao PSD para, depois, correr a São Bento. Para Passos Coelho a “mudança de vida” antecipada por Mendes deu-se três anos depois. Mas houve um livro que jamais será esquecido pela impacto que provocou: “Portugal e o Futuro”, de António Spínola, em três meses levou a uma revolução em Portugal, o 25 de Abril de 1974.

 

 

POR INÊS DAVID BASTOS – REPRODUZIDO DO DIÁRIO ECONÓMICO (11/05/15)

 

Foto: Felipe Câmara / Flickr

 

 

 

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