Assistindo novamente ao programa eleitoral do PT, veiculado agora em maio, percebi na expressão de Lula a volta de um detalhe: o cenho franzido.
Quando um ser humano busca se expressar, ele se utiliza de vários recursos de postura corporal e também facial para apoiar sua fala. Isso é inato em todos nós. Cada um se utiliza dos recursos que tem e assim nasce o conjunto da mensagem. Algumas expressões são produzidas, outras tão espontâneas que nem podemos contê-las.
Nos anos 80, Lula utilizava o cenho franzido como forma de conferir credibilidade ao seu discurso. Fazia cara de bravo mesmo! Foi muito atacado por isso.
Seus adversários viam na expressão uma oportunidade. Foram produzidas peças pregando o medo a Lula. Do ponto de vista político, a agressividade sempre foi mais de ênfase no discurso do que de base pessoal.
Em 2002, após três candidaturas e muita experiência, nasce o “Lulinha Paz e Amor”, assim denominado pela mídia na época. A mudança veio da necessidade de obter um outro tom no discurso político, que ampliasse as condições de consenso para a vitória, já mapeada pelo partido e pelo próprio Lula há muitos anos.
A questão central era como se obter uma imagem mais acessível, sem perda de credibilidade. Após três derrotas, as condições da conjuntura política mudaram. O recall (índice de lembrança) do nome de Lula se consolidou.
Ele se apresentou já com cabelo branco, com a autoridade de sua idade, e o mapeamento de seus atributos políticos também mostrou evolução. Dessa forma, em consenso com sua equipe, Lula evoluiu a sua exposição, tornou-a mais ampla.
O cenho franzido nunca desapareceu, mas o que se viu no seu desempenho de 2002 foi um Lula mais relaxado, mais tranquilo. Mostrando um tipo de segurança diferente ao seu eleitorado.
A radicalidade do ambiente político atual faz Lula franzir o cenho novamente. Em sua aparição no programa do PT deste semestre, ele demonstra preocupação, porque tem de apresentar seus argumentos em ambiente de tensão.
Mas esta não é uma análise sobre Lula e sim sobre a expressão facial. Assim, é impossível não registrar a multiplicação de falas com cenho franzido, nos atuais players da política nacional.
Nesta sexta-feira vim
os o senador Aécio Neves buscando uma fala indignada, sobre a sua viagem à Venezuela. O ex-candidato presidencial franziu o cenho todo tempo, em suas declarações aos jornalistas.
Suas posições sobre o atual regime venezuelano são absolutamente legítimas. O que chama a atenção é que Aécio parece ter adotado um novo estilo, na medida em que sempre cultivou a imagem do homem conciliador. Imagem que o aproximava do perfil político de seu avô, Tancredo Neves.
Aécio agora franze o cenho como Lula. A conclusão é que o ambiente político brasileiro, composto de ideias e tendências plurais, como deve ser, vai pouco a pouco se tensionando, contraindo, diminuindo os espaços de debate.
A expressão facial, mesmo de dois agentes políticos de grande relevância para o país, é certamente um elemento menor da disputa política. Não é nada que a defina. Mas os detalhes sempre contêm lições. Sempre há o que se aprender com eles e com o que representam.
Fotos: Reprodução de Vídeos