Sobre Candidatos e Engraxates

Em 1992, desembarcamos em Uberlândia (MG) para fazer um segundo turno. Situação difícil. De um lado, um jovem bem apanhado, candidato do PMDB, turbinado pelos partidos à esquerda. Deputado com jeitão sedutor. Do outro, um senhor semicalvo, novato na política, cara fechada, correndo pelo PTB e apoiado pelas forças do “Centrão”.

 

Pedimos logo as fitas do primeiro turno. Foi um susto: o jovem, além de bom comunicador, cativava mesmo… E o nosso Paulo Ferolla, 61 anos, meio travado, distante do eleitor… quase antipático. Quem seria o sucessor do ex-prefeito Virgílio Galassi, que já havia administrado a cidade várias vezes? A coligação “das esquerdas” já meio que festejava nas ruas.

 

Por mais que procurássemos, não encontramos gravações estimulantes de seu Ferolla interagindo com os eleitores. Seguia sendo o secretário de Finanças e Desenvolvimento do Virgílio: circunspecto, fechado, isolado no gabinete. Mas, olhando bem, sentimos, lá no fundo, uma timidez escondida, de menino, que talvez o embalasse naquele segundo turno.

 

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Prefeito Paulo Ferolla

Pedi a uma produtora para falar com seu Ferolla. Um outro produtor já tinha passado a ela o perfil do “bom velhinho” – como a equipe o apelidou logo de saída. Ruralista, criador de gado, era de origem humilde, filho de pai bancário. Daqueles de por meia-sola no sapato e os engraxar na Rodoviária. Fez isso, sim!

 

Pronto! Já começamos a armar algumas cenas e projetar emoções, para conquistar simpatia e colher votos na telinha. A disputa prometia. E ludicamente nos estimulava.

 

Cena 1: seu Ferolla deveria sair às ruas para cumprimentar o eleitor. Apertar a mão, sorrir, abraçar, uai! Mas com simpatia, sorrisos, carinho e envolvimento com as crianças. Como um vovô amigo. Pararia para conversar, perguntaria sobre a vida e os sonhos dos uberlandeses. Como um paizão carinhoso. Um futuro e atencioso prefeito. Pois é.

 

Cena 2: seu Ferolla teria de lembrar dos tempos em que engraxava sapatos na rodoviária. Era um lugar do povão e pegaria bem ele interagindo com os engraxates, contando histórias, falando da eleição. Então era isso: ele engraxaria os sapatos na Rodoviária, sob a vista dos eleitores. Simples como eles.

 

E aí começaríamos a humanizar a imagem do candidato.

 

Dito e não feito: de longe, de uma varanda da casa onde trabalhávamos, vejo lá no fundo do quintal a produtora e um Ferolla inquieto, tirando os grandes óculos com as duas mãos, colocando de novo. Impaciente. E, depois, andando meio nervoso.

 

O desencontro estava no ar. Chamo a produtora e ela vai direto ao assunto:

 

– Nada feito. Primeiro, ele diz que só cumprimenta quem conhece. Segundo, ele argumentou que não pegaria bem engraxar os sapatos dos engraxates… (Risos. Ou rs rs rs).

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Prefeito Virgilio Galassi

 

Explicada a “marquetagem”, o seu Ferolla conquistou os eleitores, não apenas na Rodoviária. Um jingle carinhoso atraiu a garotada, mães e mulheres. E o seu Ferolla, com sua simplicidade, ganhou os eleitores. E mais, quebrou a escrita: pela primeira vez na história dos segundos turnos de Uberlândia, um prefeito fazia o sucessor.

 

Mais ainda: o que também martelamos na campanha se propagou como verdade inconteste. Atrás de um bom prefeito – dizíamos – há sempre um competente secretário de Finanças, aplicando bem o dinheiro público.

 

O competente e austero Ferolla fez isso também como prefeito, de 1993 a 1996. Na outra eleição, lá estávamos nós de volta. E Virgílio Lopes, agora “discípulo” de Ferolla, voltaria a vencer. E convencer.

 

Dois grandes homens públicos, dois prefeitos que deixaram saudades!

 

 

Ilustração: restauracar

Foto Paulo Ferolla: Correio de Uberlândia

Foto Virgílio Lopes: Gazeta do Triângulo

 

 

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