Amanhã acontecerá a grande final da Copa América de Futebol, entre as seleções do Chile e da Argentina. Assim como o Brasil, as duas nações tiveram em seu passado um período de ditadura militar.
O Estádio Nacional Julio Martínez Prádanos, em Santiago, porém, não estará lotado. Um dos setores, que mantém velhas arquibancadas de madeira e está cercado por grades, permanecerá vazio. Amanhã e sempre, em sinal de respeito àqueles que viveram tempos de horror ali dentro.
Um dia após o golpe de estado que derrubou o presidente Salvador Allende, em 11 de setembro de 1973, o estádio converteu-se em campo de concentração para 20 mil pessoas, que passavam os dias em situação desumana, sob a mira constante dos “carabineros”. Hoje, “El Coloso”, como é popularmente conhecido, foi transformado em um verdadeiro museu, por um grupo de antigos presos políticos.
Um povo sem memória é um povo sem futuro é o lema escolhido pelo projeto Estádio Nacional-Memória Nacional, que também guarda no interior da Escotilha Nº 8 fotos dos sobreviventes, mortos e torturados do regime.
Somente após dois meses de abusos, graças a uma partida de repescagem para a Copa de 1974, é que o estádio deixou de ser usado como prisão. A União Soviética se negou a realizar a partida e o Chile acabou indo ao Mundial na Alemanha, depois de um episódio ridículo em que a seleção chilena entrou em campo sem adversário nem público, e ainda marcou um gol na meta onde não havia nenhum goleiro.
Antes de embarcar para a competição, o atacante Carlos Caszely foi o único atleta chileno a não apertar a mão do ditador Augusto Pinochet. Mas a sua resistência corajosa, somada à má repercussão internacional do incidente com os soviéticos, acabou por devolver o Estádio Nacional à devida utilização, para o esporte.
Com tantos escândalos de corrupção, tanto no futebol quanto na política, esse é, realmente, um fato de que podemos nos orgulhar.
