Em busca de uma voz política

Antes de ser eleita ao senado americano pelo estado de Nova York, em 2000, a primeira-dama Hillary Clinton lidava com obstáculo particular: a busca da sua voz política.

 

Embora tivesse um brilho próprio, perceptível desde sua aparição no cenário político norte-americano ao lado do marido, um então desconhecido jovem democrata na década de 90, Hillary nunca havia enfrentado uma empreitada eleitoral. Foi no cotidiano conflituoso da campanha que a voz política de Hillary se descortinou.

 

O embate é da natureza da política. É nesse ambiente de luta, nessa câmara que amplifica e viabiliza a disputa pelo controle dos mecanismos de comando e opressão, ao ponto de muitas vezes levar os interesses à hostilidade, ao choque aberto ou à guerra, é que a voz política nasce.

 

No caso da senadora norte-americana, não foi de outro jeito. Numa igreja do Harlem, antes mesmo de ser formalmente indicada como candidata ao Senado dos Estados Unidos, Hillary emergiu. “Nova York tem um problema sério e todos nós sabemos qual é”, falou. “Todos nós, menos o prefeito, ao que parece”. O templo irrompeu em aplausos.

 

A primeira-dama havia partido para o ataque contra o prefeito Giuliani. A política de segurança dele vitimou um homem negro chamado Patrick Dorismon. Era mal vista pela comunidade negra. Ao invés de adotar um discurso de união da cidade, o então prefeito decidiu divulgar a lista corrida do homem morto.

 

Hillary observou bem um problema regional e aglutinou apoio por toda sorte de cidades do estado de Nova York. “Eu me sentia como se estivesse pegando o jeito e descobrindo a minha voz política”, escreveu em seu livro de memórias Vivendo a História (2003).

 

A descoberta dessa fala interna foi um enfrentamento do desgosto do político com a política.  A reeducação política é um caminho necessário para que os atores contemporâneos se conheçam. Daí advém a urgência de haver uma evolução do fazer político em substituição ao jogo político. O primeiro busca agir em prol da coletividade enquanto o segundo dá manutenção as ações voltadas a fortalecer os interesse particulares.

 

Antes de chegar a Casa Branca, Barack Obama descobre sua voz interna como organizador comunitário em Chicago. Ele relata essa experiência fascinante na obra em A Origem dos Meus Sonhos. Descreve como conseguiu injetar ânimo por cidadania em moradores de um conjunto habitacional de Chicago. Foi esse conhecimento adquirido na comunidade que ele levou consigo para  Harvard, para o Congresso dos Estados Unidos e depois para a Presidência.

 

A voz política nasce desses embates e dos enfrentamentos políticos do cotidiano. A voz política é o combustível perene do político altivo. O político altivo é aquele que é liderado e não líder. O político altivo é o novo sujeito político. Ele defende a política. Reitera virtudes e valores da política diante dos  seus detratores. É aquele que não abandona a sua voz política .

 

 

Foto: jtf.org

 

 

Sumário