Eleger com Música

 

 

Se você pensar em roupa, celular, carro, refrigerante, computador, esses e quantos dessa ordem puder acrescentar, não terá dúvidas em apontá-los como produtos que contêm ingredientes que os torna úteis para vender.

 

Seriedade, sensibilidade, emoção, felicidade poderiam estar numa lista de ingredientes de algum produto, podendo, portanto, ter alguma utilidade para esse produto estar à venda?

 

Quem não será capaz de lembrar um comercial de TV (da Valisère), aquele do primeiro sutiã? Só quem nunca viu. Não precisa muito esforço para a gente lembrar o rosto, o jeitinho recatado da adolescente andando com a pasta da escola grudada ao corpo, protegendo a “sua” novidade, como se tentasse escondê-la dos olhares invasivos.

 

Uma imagem bonita e sensível, pontuada por uma música instrumental (parte de uma ópera de Puccini) envolvente e expressiva. O que torna uma peça como essa diferente de tantas outras?

 

Já foram feitos muitos comentários e análises técnicas, com muita propriedade, sobre esse pequeno filme. Por que ele se tornou assim tão “memorável”, no melhor sentido? Me vem à mente a observação (que hoje talvez fosse qualificada como politicamente incorreta, mas recorrente aqui neste meu argumento) do poeta Vinícius de Morais, puxando a brasa para sua “sardinha”: “Que me desculpem as feias, mas beleza é fundamental”.

 

Feito esse pequeno preâmbulo, quero abordar o que me fez escrever isso, para agora falar do que interessa: jingle. E jingle para campanha política.

 

Na internet aparecem, em vários sites, os jingles de várias épocas, desde que se começou a fazer campanha política no nosso país. Todos bastante conhecidos e lembrados.

 

Mas que motivos ou ingredientes um jingle precisa ter para que se consiga ouvi-lo com prazer, mesmo depois de passada uma campanha política? Digo “com prazer” porque pode acontecer de uma peça ser lembrada, mas sem causar aquele “arrepio” que causou durante o tempo em que permaneceu exposta numa campanha.

 

Dá para apontar variáveis que evidenciariam alguns desses motivos. A publicidade sempre toma emprestado da Arte alguns ingredientes estéticos que aproximam uma peça publicitária de criações artísticas: seja uma foto, um filme, uma música ou canção (letra e música), que esteticamente mostrem aqueles ingredientes a serviço da melhor expressão da mensagem que se pretende passar para as pessoas. Para dizer de uma maneira mais direta: do que se quer vender.

 

A emoção, todo o envolvimento que pode vir à tona trazido pela sensibilidade dos profissionais encarregados da tarefa de vender esse produto (aqui já revelado como tal), um candidato a algum cargo público. Sendo esse o produto, não seria até mais lógico que a emoção e a sensibilidade estivessem mais presentes, e com mais propriedade, já que se estaria “vendendo” uma pessoa?

 

Já li e ouvi gente sabidamente inteligente dizer que, num jingle para campanha política, basta marcar o nome e o número do candidato.

 

Se você voltar atrás e reler o segundo parágrafo aqui escrito, poderá questionar: como transmitir seriedade acompanhada de emoção e sensibilidade, para vender o produto que, em suma, vai propor melhorias para uma população que quer uma vida melhor, mais feliz? Mesmo se a gente tiver convicção de que a felicidade será sempre um objetivo a atingir, beirando a utopia, isso não impede que ela seja desejada e buscada.

 

Para as peças publicitárias sempre existirão vários recursos que poderão ser usados. Penso que emoção, seriedade, sensibilidade são valores permanentes e insuperáveis, posto que basicamente humanos. E precisam ser evidenciados, quando se apresenta um ser humano como produto.

 

Acredito também que quem cria uma peça publicitária torce para que o produto oferecido corresponda à expectativa de quem o adquire. Sendo um jingle para um candidato, que ele possa cumprir o melhor possível seu papel (e só tem nome de Arte o que é bem feito). Que incorpore, de certa forma, toda a beleza que aquele profissional da publicidade ou do marketing político tentou colocar em seu trabalho.

 

Quando pensamos num jingle – uma peça com letra e música -, isso imediatamente o torna próximo da canção, essa arte tão significativa em nosso país, pela tradição das cantigas tradicionais e do riquíssimo trabalho dos compositores. A música em si, até mesmo sem palavras, acessa canais sensíveis da nossa percepção, despertando sentimentos que outra arte sozinha talvez não consiga atingir tão fortemente, em nosso corpo e nossa mente.

 

Ela é uma coisa assim, subliminar. Leva ao recall tão buscado (e sempre necessário) em qualquer peça publicitária. E quando, em alguns momentos, se associa com a poesia, aí é covardia. Juntando as duas a uma bela imagem, quem haverá de resistir?

 

Você pode “carregar” a música sem lançar mão de nenhum instrumento especial – às vezes surpreendendo até a sua própria memória. Só precisa de um leve murmúrio, ou um assobio.

 

(Foto: Leonel Ponce / Flickr)

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