Com a Palavra, o Candidato!

Vou começar pelo básico: a importância da comunicação, isto é, o fenômeno humano do compartilhamento. Tornar o um comum.

 

O processo inevitável da comunicação reside no centro da sobrevivência de qualquer espécimen, e incluo aí a espécimen política – o cidadão da polis.

 

Aprendi e continuo descobrindo os mistérios da comunicação, como desafio essencial nos processos de transformação pessoal e social. Um mistério que está muito longe de se permitir desvendar totalmente. Mas, com a margem mínima necessária, empenho-me em tentar qualificar esse ser político que comunica e que, não raramente, perde o objeto da sua comunicação, por inépcia, desatenção ou desprezo pelo interlocutor, trazendo palavras, gestos e movimentos que negam o que conta e que confundem todos os conteúdos.

 

Percebo existir, nessa balbúrdia comunicacional, a ausência de consciência do significado de si, do contexto e do outro. O ser político fica, então, refém das interpretações.

 

É legítimo e desejável que esse personagem – perdido nas nuvens de palavras e na miscelânea dos gestos – se aproprie com responsabilidade dos seus recursos comunicacionais e desenvolva os seus talentos para apresentar as suas ideias. Ou então continuará sequestrado, por conta da sua própria limitação.

 

Se não era isso o que queria dizer, por que então o disse? Porque não compreende como a leitura das palavras é feita, como as palavras ditas são ouvidas. E também não se dá conta de como as palavras não ditas são faladas.

 

Quando penso no marketing político fico focada no elemento central da campanha, sua excelência o candidato. Como numa estrutura piramidal, é ele quem dá o tom, a partir de um ponto mínimo – ele próprio –, para então a sua música espalhar-se por todas as mídias que irão potencializar a sua imagem, e a sua mensagem.

 

Não é possível criarem-se factoides que sobrevivam à avalanche de demandas imprevistas e imprevisíveis numa realidade em que as barreiras da cerimônia pela autoridade ou o apreço pelos rituais nos contatos entre jornalista, blogueiro ou o público proprietário de câmeras e de microfones são fictícios. A única maneira para que sua excelência o candidato fale sem derrapar em si mesmo, fora do ambiente controlado dos house organ e do estúdio contratado, é pelo desenvolvimento da autopercepção e da clareza dos seus propósitos.

 

Aliás, não se deve esperar que todos estejam alinhados no desejo de exclusivamente servir a ordem pública. Mas se ele, inconsciente, tenta ludibriar a si mesmo tentando camuflar o seu propósito, vai se expressar tíbio e bruxuleante, mostrando uma oscilação que não gera base, confiança, adesão, voto.

 

No espaço da polis, o espaço do discurso é sagrado. E no espaço da política a qualidade da comunicação é um diferencial que se sobrepõe – feliz ou infelizmente – aos resultados da gestão. E, feliz ou infelizmente, o porta-voz se confunde com a mensagem.

 

Essa indissolubilidade deve pressupor uma escolha por significados e pela consciência da própria linguagem e dos seus desejos. É assim que, coerente com suas escolhas e consciente da sua fala, se espera e se deseja que fale, sua excelência, o candidato.

 

Foto: FSA-PSOE / Flickr

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