Vício solitário. Ou, talvez, nem vício, nem solitário. Réu confesso, devo admitir que desde 1992, quando trabalhei em minha primeira campanha política, não colocava a informação em currículo nenhum. E olha que desde lá foram 13 campanhas. Estaduais e municipais. Em seis delas fui o coordenador geral de rádio, TV e mídia impressa, o que não é pouca responsabilidade, quem é do ramo sabe.
Só muito recentemente sai do armário e digo, sem vergonha alguma, que trabalhei e logrei sucesso em muitas campanhas. A mídia, os colegas de profissão e mesmo a tal opinião pública fizeram com que muitos de nós que trabalhamos em campanhas nos sentíssemos indignos, pelo ofício de realizar programas de rádio e TV para o horário político, entre outras atividades de campanha.
Como se muitos de nós não estivéssemos ali ganhando o nosso dinheiro oferecendo o que sabemos fazer: editar, dirigir, redigir e afins. Vocês podem dizer que existe uma tremenda manipulação nesse ofício e eu lhes respondo simplesmente: no rádio , na televisão, nos jornais e portais onde trabalhamos não tem ? Ora, deixemos de hipocrisia.
Não posso dizer pelos outros, mas o que me desafia e motiva numa campanha política não é o candidato em si. E sim a vontade de fazer o mais palatável e bem arrumado programa possível. A sensação de urgência, a rapidez é mais do que pré-requisito para estar à frente de um programa desses. A equipe tem que ser colaborativa entre si e o astral não pode cair. Com o perdão do lugar comum, “a orquestra tem que ser mais do que afinada”.
Grosso modo, um coordenador-geral de campanha é aquele que está ao lado ou logo abaixo (hierarquicamente falando) do marqueteiro-chefe. Marqueteiro que, para se sair bem, deve ter ao menos três características fundamentais desejáveis: senso de liderança, expertise no ramo e serenidade para aguentar as terríveis pressões do cliente e de seus apaniguados, assessores e uma plêiade de puxa-sacos, que às vezes são inevitáveis, especialmente se o cliente for um governador ou prefeito que tenta a reeleição.
Eu estive sob comando de bons e maus marqueteiros. Em dois casos, os marqueteiros eram tão assoberbados em campanhas Brasil afora que acabei por acumular a função de coordenador com a deles, monitorando pesquisas, definindo estratégias. Sem mágoas por isso. Foi jogo combinado.
Aliás, em qualquer campanha, o melhor é o jogo combinado. Quem te contrata diz o que quer e para onde quer ir. Você agrega seu conhecimento e criatividade, e vai em frente. E reza para ter a sorte de receber o valor tratado, ao final.
Isso também é jogo combinado. Na maioria das vezes o pessoal que lhe contrata honra as calças e saias que vestem. Outros são caloteiros contumazes. Das 13 que fiz, não recebi apenas uma. Justamente de um elemento que posa de guardião da decência e moralidade.
Mas deixemos os dissabores do ofício de lado. Eu demorei para sair do armário, mas lhes garanto que é ótimo assumir que gosto de fazer isso. Campanha política. Com bons marqueteiros, de preferência.